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Uma história com dono

Quando nosso ídolo Ayrton Senna morreu, houve uma comoção nacional sem precedentes.

Como sempre, a mídia procurou achar fatos desconhecidos e pessoas próximas dele para escancarar sua vida particular e nesta procura acharam sua namoradinha, neste triste momento, uma garota então desconhecida chamada Adriana Galisteu. Então os repórteres caíram em cima da mocinha querendo descobrir segredos e desta maneira, ela foi empurrada para as páginas principais dos jornais e revistas.

Isto incomodou a família do nosso herói, que não gostou da maneira que ela expunha sua relação com o piloto e também o certamente aflorou o medo de ver exposta a intimidade do Ayrton.

Diante dos protestos, surpreendentemente, Adriana respondeu de uma maneira definitiva:

“- Eles têm seus direitos, mas eu sou a dona de minha história!”

Guardada as devidas proporções, Carlyle Poop foi buscar no sentimento de posse de uma história de ficção, a inspiração para escrever seu livro. Até o título remete-nos ao assunto: ‘O Dono de Minha História’.

Uma ideia inusitada, mas, sobretudo, original. Quem não pode dizer que recebeu uma influência marcante na sua formação? Da mãe, orientando o caminho; do pai, principalmente pelo exemplo; do professor amigão ou daquele ídolo bom em tudo que nos acompanhou na lembrança pela vida afora?

O livro

Ou na fauna que nos rodeia: um amigo, uma namorada, um personagem, enfim, qualquer pessoa cuja sombra nos abarca. No caso deste livro, é um colega de escola.

Curiosamente, com toda esta importância, Salésio – o personagem influenciador – somente baliza os limites e é a referência que sempre aparece nas lembranças do narrador. Mas persegue e incomoda o protagonista, desde seu rito de passagem, na sua formação e depois no seu trabalho.

O narrador, com pouca identidade formal, vai construindo sua imagem biográfica através das lembranças vinculadas às pessoas mais próximas.  Deliciosamente, o autor puxa para o presente, as locações, coisas, músicas e fatos de uma Curitiba bucólica, dos anos setenta em diante. Afloram as lembranças da cidade, sua casa, o colégio, professores e colegas, tudo que grudou nele e para sempre, tal como a solidificação de uma pasta visguenta.

Explosão de ideias

Nesta explosão de ideias o leitor vai queimando etapas até o final. Mas o destaque de sua formação, no ritual de passagem da juventude, fixa-se na descoberta do amor inocente pelas menininhas e vai crescendo até as descobertas sempre renovadas, das delícias do sexo.

Confesso que fiquei curioso de como o autor teve esta ideia genial. Há uns cinco anos ele contou-me que estava escrevendo um livro. Mas isto é fato comum para ele, professor doutorado em Direito e autor de livros jurídicos, sendo até membro da equipe editorial da Editora Juruá.

Mas a surpresa que balançou minha curiosidade foi que ele completou a informação esclarecendo que esse livro em gestação seria um livro de ficção. Ficção? Do doutor Carlyle?

Ler aos poucos

Para um mestre como ele, como não podia deixar de ser, é uma narrativa inteligente. Sua leitura não é linear e direta que remete a uma história simples porque o autor aborda seu personagem operando cirurgicamente e revolvendo suas entranhas. É mais ainda, é um livro para se ler aos poucos e de vez em quando parar para juntar as ideias e refletir.

Mal comparando, não é uma cerveja que se deve beber antes que esquente e sim, um bom vinho que se bica aos poucos, sabendo sua origem, erguendo-o contra a luz e fazendo o líquido dançar no fundo da taça, tanto para conferir sua fluidez como aspirar seu aroma.

Bobagem! Já tinha escrito esta comparação piegas quando me lembrei do que disse o protagonista da história e que serve para me dar um puxão de orelhas:

“Não gosto muito de vinho. Lembra-me do Salésio, (o que sabia de tudo). Todo cheio dizia ‘daqui a uns anos todo mundo vai beber vinho no Brasil. Só a ralé vai tomar cerveja.”

Para terminar, o texto pescou no passado uma gíria regional que não ouvia há mais de setenta anos, no meu longínquo tempo de piá…  Ou seja, ‘cuera’ no sentido de ‘bom’ ou de ‘craque’. Aliás, palavra que se pode associar ao livro comentado: ‘coisa de cuera!’

Parabéns ao autor, mas também à editora, pois lançar livros em nossos tempos estéreis é o verdadeiro ‘padecer no paraíso’.

Sucesso!

O doutor merece!

 

Título: O SENHOR DA MINHA HISTÓRIA

Autor: CARLYLE POOP

337 PÁGINAS

EDITORA INVERSO

NAS LIVRARIAS

Danish artist Olafur Eliasson who was inspired by the kaleidoscope in the installation 'Machine of See' (2001-2008) Inhotim

Inhotim is perfect symbiosis between contemporary art and nature

 People of Brumadinho, in Minas Gerais, says that an English miner named Timothy walked by these lands sometime in the past.
The native from Belo Horizonte, thanks to their unique accent, used to call him as Nho Tim. This way Inhotim was born, an open air museum of contemporary art that stablishes the perfect symbiosis between artistic poetic and nature.
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 The Sound of the Earth
The American Doug Aitken built his Sonic Pavilion at the top of one of the hills in Inhotim, surronded by lush vegetation, to capture the sound of the Earth. Maybe the Ohm sound so used by Yoguis or maybe not. It is a work that impacts the visitor.
Steel and glass pavilion, covered by a plastic film, with a tubular well of 202 meters deep, with sophisticated amplifiers and equalizers to transmit the sound of  ‘mother nature’ in real time. It is a privilege to visit this unique work!
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 Lama Blade

Another American Mathew Barney with Lama Blade installation (2009) placed inside a prism, no longer on a hill, but engrossed in the bush, a bulldozer with muddy wheels pulling a tree. A work that began at Carnival, in Salvador, 2004, and arrived in Inhotim in 2008. Invites the viewer to reflect about the role of man and the machine that gives him power to destroy the nature.

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The 500 photographs of Claudia Andujar about Amazon and Yanomami natives is a precious collection about indigenous life, culture and humanitary and political activism. To visit and observe her work is to engage with the soul of forest people, such is the sensitivity with which Claudia treated the images and the flagrant.

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The Spanish Miguel Rio Branco brought a Brazil without identity, from poverty and prostitution that was developed in the pillory in Blue Tango, 1984, in photos and videos.
There are 23 installations and more individual works around the giant park idealized by the entrepeneur from Minas Gerais – Bernardo de Mello Paz – from mid 1980. It is a structure, undoubtedly, very well managed and can be visited by walking or with the service of eletric cards that the museum itself offers. The admission fee is R$25,00 and most hotels are distant, but there is the facility of taxis or rent a car in Belo Horizonte.
Visit Inhotim is a pleasure to those who like art and enjoy natural environments. A must ride!
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Emoções do olhar Yanomami nas lentes de Andujar/ série Inhotim

As 500 fotos sobre indígenas, em especial os Yanomami feitas pela fotógrafa Claudia Andujar, expostas num pavilhão especial em Inhotim, são um espetáculo de luz, sombra e cores criado a partir de almas sintonizadas.

A fotógrafa captou em suas lentes a pureza do olhar indígena conectado com sua floresta e depois de  algumas décadas a profunda tristeza desses mesmos povos da floresta perdidos pela interferência do homem branco em sua casa.

É um rico e precioso documentário sobre a exuberância da floresta Amazônica e dos povos Yanomami, habitantes dos estados de Roraima e Amazonas, no Brasil e na Venezuela. O local foi construído em Inhotim especialmente para abrigar o acervo de Andujar e está dividido em três blocos, a Terra ( imagens da floresta), o Homem, retrata os povos Yanomami, com ênfase nos rituais xamânicos, no cotidiano, na casa em seus costumes; e o Conflito – que mostra as diversas frente de contato com o branco, processo que levou o engajamento da artista na luta pelos direitos dos povos indígenas.

As lentas conduzidas pelas mãos sensíveis de Cláudia Andujar conseguiram captar flagrantes tão eloquentes, de alegria, gozo, tristeza, desilusão, que um observador mais atento é capaz de perceber e se sintonizar nesse diálogo entre a fotógrafa e o indígena.

Em 1971, Claudia troca o fotojornalismo pelas margens do rio Catrimani, no território Yanomami – fora dali, mais conhecido como Roraima. Amparada por uma bolsa de dois anos da Fundação John Simon Guggenheim, vê de perto o choque entre os índios e o milagre econômico brasileiro.

A rodovia Perimetral Norte se junta a epidemias de garimpeiros, sarampo e gripe, arrasando aldeias inteiras. Claudia já sabia que se não tem índio é porque não sobrou floresta. E, se não sobrar floresta, ninguém sobrevive. Para evitar o fim do mundo, a fotógrafa vira ativista e funda a Comissão pela Criação do Parque Yanomami, em 1978. Treze anos depois, consegue a demarcação da terra indígena. Mais de 96 mil quilômetros quadrados, duas vezes maior que a Suíça. Risos.

Fala Yanomami? Agora estou esquecendo. Não falava fluentemente, mas falava. Passei mais ou menos 20 anos com os Yanomami. De vez em quando voltava para São Paulo, mas no fim das contas passei muito mais tempo lá do que aqui.

Claudia tem amigos Yanomami até hoje.  Os três textos das fotos foram originalmente publicados em revistaTrip.uol

‘A seleção das imagens é resultado de um processo de pesquisa e curadoria entre a instituição e a artista que durou cinco anos. Grande parte das imagens é inédita e foi selecionada e impressa pela primeira vez para exposição inaugural da galeria’. Informação apresentada na Galeria inaugurada em novembro de 2015.

Claudia Andujar nasceu em Neuchatel (1931), Suiça, e naturalizou-se brasileira no início dos anos 50. Nas décadas de 60 e 70 começou a fotografar a Amazônia e foi quando iniciou a sua luta pela preservação do povo Yanomami, tendo sido uma das fundadoras da comissão para criação do Parque Yanomami.

Imagem via internet. Todos os direitos reservados a Veja/SP

A artista exprimiu nas imagens seu amor por um povo. Foi visionária ao mostrar as consequências do choque entre o branco, a floresta e o índio antes de qualquer manifestação oficial. Documentou o que esse contato provocou de destruição e epidemias na região Amazônica, sobretudo pelo garimpo ilegal. Entre 1981 a 1983 fez novas imagens bem diferentes daquelas feitas em 1970.

Pela Comissão de Criação do Parque Yanomami (CCPY) levou médicos da Escola Paulista de Medicina para entender a situação de saúde daquelas populações já tão afetadas pela interferência do branco. ‘Como o índio não tem como cultura o uso de nomes próprios, usava a técnica de identificá-los marcando-os com números. Os dados levantados serviram de base para o relatório Yanomami (1982), documento fundamental para demarcação das terras indígenas’.

As 500 fotos expostas na Galeria de Inhotim contam a história do verdadeiro brasileiro – o índio. Mostram sua relação com a floresta, seu jeito de viver e quais as consequências provocadas por um contato mal conduzido pelo  homem branco.

Deixá-lo viver em paz dentro de seu habitat natural é preservar conhecimentos ancestrais sobre o uso da floresta. É garantir a sobrevivência da espécie humana.

Olhar Crítico atualizado 26/10/2021 de uma matéria feita 

Infelizmente, a tragédia ocorrida com duas crianças Yanomami, em consequência do garimpo ilegal, mostra o grande risco de a ganância colocar fim no que foi construído com tanta garra por Claudia Andujar.  O garimpeiro não cede e continua a avançar na sua vontade incontrolável de destruir a vida, sobretudo nos tempos atuais, cujo aval é garantido e tem o consentimento de uma sociedade escravocrata e um governo autoritário.

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Um caminho para o reencantamento/série Inhotim

Saindo da modernidade você caminha ao encontro de palmeiras de todos os tipos e verdes de muitos matizes

 

Tudo envolvido em orquestras de cigarras e pássaros cantando. A verdadeira naturalização do humano e a humanização da natureza, como disse o artista. Sim, ali se descortina o direito à vida da natureza perdida.

SUBMERGIR no cenário de INHOTIM é como mergulhar em um mundo mágico que foi esquecido pela modernidade.

Edgar de Souza, Sem Título – Bronze (2000)

O Parque impele as pessoas à reflexão sobre a diversidade e sustentabilidade substituídas pelo lixo consumista. O homem moderno e urbano sofre o impacto de adentrar no seu “habitat” verdadeiro e distante no tempo.

Inmensa – Cildo Meireles, Aço ( 1982-2002)

Sente que o seu mundo é esse ali representado. Mata Atlântica, aráceas, bromélias e palmeiras lhe abraçam num aconchego uterino.

As intervenções artísticas dialogam com a natureza. A galeria onde o artista apresenta o “som da terra” como o mantra “om” soa apelando ao renascimento dos humanos em comunhão com a terra. 

 

As instalações de Tunga e de Cildo Meirelles remetem à necessidade de salvamento dos homens, um renascer mais consciente, lógico e urgente, necessário ao reencantamento do homem diante da natureza.

 

 
Tunga – Galeria Inhotim

Os sons captados do canto da cigarra que se unem numa sinfonia única em Inhotim, de   Brumadinho, em Minas Gerais.Ao final o som da Terra, na obra do artista americano Doug Aitken numa sinfonia inusitada.  Esse museu a céu aberto é um deleite pela natureza exuberante e as extraordinárias instalações e obras de arte contemporânea.