Ser criança e as lembranças de um tempo que fica para sempre

Estamos quase no fim do ano de 2017. O tempo sem dúvida corre e mesmo sendo importante pensarmos diariamente no cuidado das crianças, este é o mês em que se comemora o Dia das Crianças, então porque não falarmos um pouco sobre a infância?

Houve uma época em que não se dava tanta importância ao desenvolvimento dos pequenos. Eles eram vestidos com roupas de adultos e podiam trabalhar a partir do momento que isso fosse possível fisicamente.

Enfim, as crianças eram adultos em miniaturas. Mas isso mudou. 

Foram criadas leis para proteger os direitos delas e de tanto cuidado, há pais que infelizmente esqueceram de dar limites aos seus filhos.

Apesar de ser fundamental a liberdade para a criança se expressar, correr, brincar, rir e reclamar, também é uma condição ‘sine qua non’, ensinar o que é ter limites.

Não tenho como falar de crianças sem lembrar da minha infância.

Na minha vida tive a oportunidade e a felicidade de ter pessoas que me ensinaram ter respeito ao próximo. É muito interessante como temos lembranças de momentos marcantes das nossas vidas. Pensando nestes trechos, é incrível a sensação de que o tempo não passou.

Lembro claramente dos dias que desafiava meus pais, sendo teimosa. Recebia castigo e era repreendida firmemente por eles. Eu realmente queria ter poder em casa, mas não era possível. O meu lugar sempre foi de filha. De alguém que tinha direito e deveres dentro das horas em que meus pais achavam que era necessário.

Hoje, sendo adulta e uma profissional da área psi, penso que eles fizeram o melhor por mim, do jeito que entendiam ser o mais adequado. E sei que não seguiram manual algum, apenas fizeram isso com muito amor.


Lembro-me de uma situação marcante de meu aprendizado:

Um determinado dia em que aconteceria um eclipse lunar, eu tinha uns 10 anos e o céu estava ensolarado. Estávamos em Guarapuava, interior do Paraná, visitando meus primos, tio e tia…Parece que sinto o calor do sol refletindo no meu corpo, pois é uma lembrança muito gostosa…

Eu, minha irmã e minha prima, estávamos sentadas na pequena escada de 2 degraus que saia da porta da lavanderia. Meu pai estava agachado explicando para nós, com uma maçã e uma laranja, como era que acontecia o eclipse. Entre tantas coisas que aprendi com meus pais, este foi um dos dias que nunca esquecerei. Foi algo de muito carinho, expressado com sabedoria e delicadeza.

Enfim, queria contar isso apenas para dizer e poder ilustrar o quanto todos os fatos são marcantes na vida de uma criança.

Tudo que é falado é aprendido pela criança, mas todas as atitudes também são exemplos,  apreendidos na infância. 


Com toda certeza, não há como não dizer que as crianças são os futuros adultos e dificilmente serão diferentes daquilo que ensinaram à ela através do que é falado, mas também do que não é falado, daquilo que elas observam e sentem. 

Podemos melhorar na fase adulta, continuamos aprendendo até nossos últimos dias, mas a personalidade fica para todo sempre.

Desta forma, espero que possamos criar crianças saudáveis física e psiquicamente. E se não conseguirmos fazer isso sozinhos, precisamos procurar apoio de pessoas que nos dêem mais segurança nesta tarefa, ou de profissionais competentes para isso.

Afinal de contas, elas não vêm com manual de instruções e cada um é único, ou seja, não existe uma receita do que é o melhor para cada ser humano. E o que sabemos, é que é indispensável que tenhamos crianças felizes e com equilíbrio emocional para um amanhã melhor.

Carolee-Schneemann. Foto retirada do site della Biennale di Venezia.

Não à censura. Leão de Ouro de Veneza foi para artista pioneira na performance do nu

 Justamente no mesmo ano em que alguns grupos brasileiros bradam pregando imoralidade na performance de um nu artístico, Veneza concedeu na abertura da Bienal (maio), o Leão de Ouro, o prêmio máximo do evento, para americana Carolee Schneemann, pioneira por utilizar o corpo nu na arte.

A artista, segundo o júri internacional do evento, contribuiu para o desenvolvimento da performance e da Body Art, sobretudo em relação ao conceito do corpo nu feminino, em oposição a tradicional representação das mulheres como simples objetos nus.

Schneemann utilizou em vídeos arte, pinturas, fotografias, cinema, o corpo nu como força primitiva e arcaica no sentido de unificar a energia. O seu estilo sempre foi direto, sexual, liberado e autobiográfico.

O júri internacional da Bienal de Veneza, que é composto por especializados em arte do mundo inteiro, entendeu que Carolee, como pioneira da performance feminina no início dos anos 60, promove a “importância do prazer sensual feminino e examina a possibilidade da emancipação política e pessoal das convenções sociais e estéticas predominantes”.

Portanto, a premiação não é apenas uma exaltação à nudez, mas um reconhecimento do papel político-social da proposta de Scheenmann ao usar seu corpo para provocar e estimular as pessoas à reflexão sobre a condição da mulher no mundo moderno.

Bienal de Veneza é referência em arte no mundo

É importante situar a dimensão desse prêmio oferecido à artista e a postura de vanguarda de um evento tradicional e que é referência no mundo artístico. Até para responder questionamentos sobre arte na  Europa. Responder afirmações entusiásticas de que a arte europeia estimula a beleza estética.

As pessoas se baseiam nos museus mundialmente visitados e não se prendem ao dia-a-dia e movimentos artísticos mais pontuais que não são tão vendidos em pacotes turísticos de viagens. 

A tradicional Biennale di Venezia, na Itália, tem 122 anos de história na mundo da arte. É referência e vanguarda na promoção de novas tendências artísticas e organiza manifestações nas artes contemporâneas, segundo um modelo pluridisciplinar único. 

O marco de sua origem é  1895, com a primeira exposição internacional de arte que se estende a todo o século 20 até hoje na sua 57a. edição. Em 1932, a Bienal expande sua atuação e cria a mostra de Cinema, o primeiro festival cinematográfico nunca organizado no mundo, que se acrescenta com já existente, da Música (1930), na sequência com a criação do Teatro (1934), da Arquitetura (1980) e  da Dança (1999).

Assim, torna-se um evento completo, único e peculiar na oferta de tendências culturais nos diversos campos das artes. Fonte: site La Biennale di Venezia

Principais obras de Carolee Shneemann

Meat Joy, performance de 1964, é uma obra de teatro cinético, definida pela artista como celebração da materialidade da carne.

Fuses, 1968, é um filme erótico composto por uma colagem de imagens explícitas em torno da artista, que mostram o relacionamento sexual entre ela e seu companheiro da época, o compositor James Tenney.

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“foto via internet site Exibart

Interior Scroll, 1975, é uma performance em que Scheemann, nua, extrai um pergaminho de sua vagina.

Up do and Inluding Her Limits, 1973-1976, “a artista traduziu o gesto em performance, usando o seu corpo suspenso como um arsene para pintar, revisitando a história prevalentemente machista do Expressionismo abstrato e ação da pintura”.fonte Bienal.

Carolee também abordou em suas obras, em contraste ao imaginário íntimo cotidiano e ao erótico sagrado, a destruição e a guerra. Viet-flakes (1965),  e Snows (1967) trata das atrocidades da guerra do Vietnã.

Para conhecer alguns vídeos sobre os trabalhos de Carolee basta entrar no Youtube e buscá-los.

Brasil e o nu

De repente, o assunto Body Art no Brasil transformou-se numa cruzada contra a destruição da família, de acordo com a opinião de alguns grupos radicais de direita. O nu, vejam só, transformou-se em assuntos eleitoreiros. Quem diria!

Nesse contexto estão envolvidos o MBL – Movimento Brasil Livre – e segmentos mais conservadores da nossa sociedade, que ao meu entendimento estão desvirtuando o papel da arte contemporânea como manifestação do livre pensamento a partir de uma obra, seja ela pintura, fotografia, cinema, escultura, o próprio corpo ou movimentos coletivos.

Ninguém é obrigado a gostar de arte contemporânea ou visitar eventos que agregam obras envolvidas com o conceito. A contemporaneidade exige da arte a provocação para propor debates e reflexão.

“Se arte não consegue mudar o mundo, pelo menos, por meio dela ele pode ser reinventado”, diz a curadora da Bienal de Veneza, Christine Macel.

Criança e sua participação

Agora a pergunta: o que é certo ou errado para a criança, considerando que a polêmica em torno do nu foi criada porque uma mãe deixou o filho (a) de quatro anos tocar num corpo nu, em performance artística, num espaço próprio para tal, no Museu de Arte Moderna em São Paulo.

Alguém no local filmou e colocou esse vídeo para viralizar na web, com intenções provavelmente bem comerciais e políticas. Sem dúvida, para dar continuidade ao tema imoralidade na arte, tendo em vista a recente questão sobre o cancelamento do Queermuseu no Rio Grande do Sul.

Significa que a histeria coletiva foi gerada com segundas intenções e em nenhum momento se pensou na criança, acima de tudo na exposição da imagem. 

A pergunta sobre o certo ou errado psicólogos e orientadores podem responder.

“Não existe certo ou errado para criança e nem se pode colocar a questão de forma generalizada”, afirma a Psicóloga-psicanalista, Paula Braga, que atua na clínica atendendo crianças, adolescentes e adultos. “Tudo depende da maneira como a criança é criada e essa estrutura deve ser respeitada.

É a mãe ou pai que determinam o que deve ou não ser visitado, especialmente na fase da formação da personalidade”.

Resumindo, numa simples opinião pessoal, da autora desse texto, se a mãe está criando o filho com um olhar mais aberto em relação ao corpo nu, com menos vergonhas e tabus, é possível que essa criança possa entender e interagir numa performance artística.

Os índios que vivem despojados de roupas nas florestas desse Brasil, em algumas sociedades tribais da Amazônia, estão aí para provar que é possível vivenciar o nu sem olhar o corpo como pornográfico.

Agora, quanto o assunto é pedofilia, não confundir a situação com performance de um nu artístico, que se coloca em outro nível de entendimento e conceito.

Pedofilia está realmente preocupando a sociedade moderna e se desenvolve, cresce e encontra suporte, na obscuridade da repressão, exatamente nos locais menos prováveis e mais puritanos! 

 

 

 

 

 

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“As Crianças da Ferroviária”

 Há anos  atrás  li o livro intitulado “As crianças da Ferroviária”  e continuamente me recordo dele.

Quando acabei a leitura estava identificado com a experiência dessa história, como uma daquelas crianças. Um parte da minha vida, durante a infância, passei andando pelos trilhos de uma ferroviária, era o trajeto a caminho da escola e era assim quase todos os dias. Partíamos em grupo para a escola,  a pé, íamos brincando uma variedade de jogos durante o percurso.

Do tempo das nossas infâncias, eu e meus amigos partilhamos duas recordações  fortes: a primeira, de um riacho que passava atrás das nossas casas. E a segunda, da ferrovia. As duas imagens agora caminham para longe e levam com elas nossos sonhos . Através da lembrança do brilho do sol, refletido nas águas do riacho e em cima das linhas formadas pelos trilhos,reencontramos a alegria da vida.

A ferroviária foi o nosso principal caminho para chegar até a escola. Não havia trânsito e nem multidão . Gostávamos de caminhar fluindo para longe, junto com os  trilhos do trem, isso nos dava uma sensação de liberdade. Assim como a luz do sol brilhando sobre o rio, o brilho dos trilhos  era como um raio capaz de iluminar nossos corações. Essa sensação dava nos uma alegria imensa,  experenciada  em nossos corações infantis.

Íamos andando pelos caminhos do trilho do trem, conversando sobre muita coisa. Às vezes, íamos fumando nossos cigarros, mas escondido dos professores que usavam o mesmo caminho para chegar até a escola. Escondíamos os nossos cigarros, segurando-os com as palmas das mãos fechadas e soltando a fumaça para o vento a distanciar.

Andávamos ao lado dos trilhos vagarosamente, íamos para a escola da mesma maneira do ensino infantil até alcançar o ensino médio. As casas nas ruas  laterais  dos trilhos pareciam saídas das fábulas, com  arquitetura  diferenciada e isso as tornavam únicas. Então, quando  era criança desejava morar numa daquelas  casas misteriosas. A ferroviária transmitia uma sensação de liberdade profunda, porque os trilhos estão sempre indicando caminhos longínquos, levando nossos sonhos junto,  para longe. Essa sensação  nos dava o desejo de poder sentir bem a vida.

Na época, queríamos pegar um navio ou um trem para ir embora, como os personagens vagabundos nos livros de Steinbeck. Lembrando um livro de Jack London chamado  “Os Vagabundos da Ferroviária”.A história relatava a experiência dele e seus  amigos vagabundos passeando de trem de um lado para outro, no interior dos Estados Unidos, como passageiros clandestinos.

Nós adorávamos  esses  personagens vagabundos desse romance, eles nunca abaixavam as cabeças , eram rebeldes, almas livres . Queríamos passear como eles, sem destino, sem intenção. Era presente um desejo inevitável de ir para muito longe.

Anos depois  realizei meu sonho, fui mesmo para muito longe. Um vento me levou  para longe demais. Nunca sabia exatamente o por quê tinha esse desejo, parecia só um instinto inevitável. Tem pessoas que não podem ficar onde nasceram, precisam ir para longe, sem muitas vezes saber a razão. Eu sou uma dessas pessoas. Têm outros tipos de pessoas  mais parecidas com as estátuas de pedra, nunca gostam de se mexer e ficam na sua terra até morrer.

Da ferrovia, me lembro ainda das  mulheres idosas  perambulando por ali. Elas eram tão pobres, por causa disso procuravam por carvão já  queimados, eles iriam lhes servir, os queimavam novamente para aquecer suas casas durante as nevascas. Quando os achavam,  os recolhiam e colocavam nas suas sacolas.  Elas eram a imagem viva da pobreza e andavam pela ferroviária quase todos os dias. Pareciam retiradas dos clássicos romances  russos.

Atras  da ferroviária haviam grandes madeiras redondas abandonadas. A gente entrava dentro delas . Tinha um pequeno labirinto lá dentro,  entrávamos por um lado e saíamos pelo outro.  Tínhamos muitos brincadeiras entre nós.

O inverno era muito bonito. O caminho para a escola, era tão gelado!!! Sentíamos nossos rostos congelando a medida que caminhávamos pela via férrea.Quando finalmente chegávamos à escola, às vezes não sentimos mais nossas mãos e pernas, apesar  de estarmos muito agasalhados, usávamos todos os apetrechos possíveis, luvas, bonés, cachecol, etc.

Às vezes nossos cães nos seguiam, eles nos acompanhavam até a  escola. O meu se chamava Ceylan. Especialmente Ceylan era muito lindo, era um cão de caça peludo e nos seguia  pela ferrovia. Quando eu mostrava a direção de nossa casa ele  queria que eu também retornasse com ele até lá. Eu  fingia estar bravo e mandava:

“Ceylan vai para casa, agora!”

Ceylan parava por um tempo, como se fosse  culpado,  não olhava mais para mim e abaixava sua cabeça , mas depois continuava nos seguindo. Da escola ele voltava correndo para nossa casa, gostava mesmo de nos acompanhar a caminho da escola.

Caminhar pelos trilhos exigia atenção, pois ficava escorregadio porque as crianças iam deslizando pela neve pisoteando o chão ao redor, acabavam por endurecê-lo. Dessa maneira o caminho criava uma pista deslizante de gelo endurecido. Por causa disso, andávamos cuidadosamente, para evitar cair.

Ao menos em meus sonhos, a ferrovia ainda vive, pois as vezes  ainda perambulo por ela.  Caminho parte do seu percurso,  coberto pela neve e pelo frio. Ainda  ecoa  ali as vozes dos meus amigos de infância e é uma doce lembrança.

 

Erol Anar