Narciso e suas representações na arte

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Metamorfose de Narciso - Salvador Dali

Em tempos de Selfie – autorretrato hoje facilitado  pela tecnologia – falar sobre narcisismo nunca perde a atualidade, especialmente quando a conexão é com a arte. O jovem Narciso da mitologia grega, hoje tão citado para exemplificar a vaidade destrutiva, estimulou artistas ao longo da história a representá-lo, cada qual com sua poética e época. Caravaggio, Salvador Dalí, Vik Muniz…

O artista brasileiro, Vik Muniz, em sua obra Narciso d’après Caravaggio – 1961, recria em fotografia, com material de sucata  (pneus, velhos, ferramentas, pedaços de madeira),  Narciso do artista italiano do século XVI. A obra de Muniz repaginando Caravaggio é visionária no que se refere ao significado da vaidade e da destruição do mundo. O homem moderno construído com sucata, o que significa imerso no lixo industrial mirando-se numa duvidosa beleza. Imaginem que ele o criou em 1961. De lá para cá, o planeta está agonizando de tanto lixo gerado pela tecnologia e o homem se achando o máximo do ser inventivo.

Caravaggio

Narciso atribuído a Caravaggio (1561-1610), cuja autoria é contestada por alguns especialistas em arte, foi descoberto por Roberto Longhi, que propôs a sua datação de 1590-1595, considerando-o, sem dúvida, um original, contra outros estudiosos eminentes, como Pevsener, Mahon, Baumgart, que consideraram um trabalho Gentileschi.

O mestre lombardo Michelangelo Merisi, conhecido como Caravaggio, tornou-se famoso pelo jogo de luz e sombra em suas telas. Em Narciso, sem dúvida, a sua maestria é evidente. O belo Narciso emerge de um escuridão solitária e seu corpo e vestes recebem uma luminosidade fora do comum. A luz inebriante de seu corpo mal aparece no reflexo da água.

Eco e Narciso – John William Waterhouse – 1903

Dalí e Waterhouse

Ao contrário do contraste e da emoção de Caravaggio, o pintor britânico William Waterhouse (1849-1917) representou Narciso numa natureza colorida e bucólica. Tal como é a característica da época – o Realismo. Representar algo com o máximo de fidelidade e naturalismo. Waterhouse usa temas clássicos com um toque delicado e uma interpretação personalissima.  É possível identificar a dor de amor de Eco e a indiferença de Narciso em relação a ela.

Metamorfose de Narciso, de Salvador Dali ( feita em 1937 , foto de abertura), é um tratado de psicanálise do mestre do surrealismo. O tema retirado da mitologia clássica e transfigurado por Dalí numa tela surrealista é de complexa interpretação. Dizem  que foi uma das obras que mais representou o interesse de Dalí pela psicanálise. Era um grande admirador de Sigmund Freud. Das inúmeras histórias que circulam sobre as excentricidades de Dalí, contam que levou a pintura quando foi visitar Freud e que tinha preocupação pela sua personalidade narcisista, que só melhorou com a entrada de Gala em sua vida.

A história Narciso

Narciso era um herói grego famoso por sua beleza e orgulho. Diversas versões de seu mito sobreviveram e entre as mais famosas permanecem a de a de Ovídio, das suas Metamorfoses; a de Pausânias, do seu Guia para a Grécia (9.31.7).  As Metamorfoses narra a história de Narciso, cuja beleza foi motivo de sua própria ruína.

Narciso era tão belo que todas as pessoas que olhavam para ele, homens ou mulheres, apaixonaram-se por ele. Mas ele obstinadamente recusou toda a atenção. De sua insensibilidade e vaidade, diz-se que um dia ele deu uma espada a Aminio, um amante incurável dele, para que com ele tirasse a vida.

“E Aminio, por causa de seu Narciso, perfurou seu coração. Um dia, a ninfa Echo encontrou Narciso, que estava caçando na floresta, e ficou em êxtase. Mais tarde, quando Narciso estava caçando, ele se perdeu na floresta e pediu ajuda. Eco entrou correndo e ofereceu-se a ele como um presente de amor. Mas Narciso fugiu horrorizado.

Eco, desanimado, ele fugiu dolorido. Ele se refugiou na floresta, atormentado por sua paixão por Narciso, tanto que desistiu de viver e seu corpo enfraqueceu rapidamente até que desapareceu e apenas sua voz a deixou.

Os deuses então decidiram punir Narcisco por sua crueldade, confiando Nemesis, deusa da vingança, que fez questão de fazer Narciso se apaixonar, enquanto bebia de uma fonte, de sua imagem refletida na água.

Contemplem os olhos que parecem estrelas, contemplam os cabelos dignos de Baco e Apolo, e as bochechas lisas, os lábios escarlates, o pescoço de marfim, a brancura do rosto banhada de cor … Oh, quantos beijos inúteis ele deu na fonte enganando! … Ele ignorou o que ele viu, mas queimou por aquela imagem … ‘

Ovídio (Metamorfose).

Inconsciente de olhar para si mesmo, ele enviou beijos e carícias, mergulhando os braços na água para tocar o rosto, que desapareceu assim que ele tocou.

Narciso permaneceu por um longo tempo perto da fonte, tentando captar sua imagem refletida na água, alheio aos dias que passavam, esquecendo de beber e comer, perdidos naquele feitiço. E finalmente ele morreu perto da fonte. Quando os Naiads e as Dryads foram tomar seu corpo para colocá-lo na pira funerária, encontraram em seu lugar uma maravilhosa flor branca que tirou o nome de Narcissus dele.

‘Ele definhava por muito tempo em amor, não mais tocando comida ou bebida. Pouco a pouco a paixão o consumia, e um dia perto da primavera … ele inclinou a cabeça exausta na grama, e a morte fechou os olhos que estavam loucos. de amor por si mesmo … … dizimando as Dríades, e Echo respondeu aos gritos de tristeza, eles já haviam preparado o fogo, as tochas, o caixão, mas seu corpo não estava mais lá: eles encontraram onde uma flor havia estado de onde coração de recinto de açafrão de folhas brancas ‘

Ovídio (Metamorfose). Fonte: Fragnoli

 

 

 

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Mari Weigert
Mari Weigert
Mari Weigert é jornalista com especialização em História da Arte pela Escola de Música e Belas Artes do Paraná. Atuou na área de cultura, como jornalista oficial do Governo do Paraná. Durante um ano participou das aulas de Crítica de arte de Maria Letizia Proietti e Orieta Rossi, na Sapienza Università, em Roma como aluna ouvinte. Acredita que as palavras bem escritas educam e seduzem pelos seus significados que se revelam na poética da vida. *IN ITALIANO (Mari Weigert è giornalista e perfezionata in Storia dell' Arte per la Embap, del Brasile. Durante un anno è stato alunna di Critica d'Arte, alla Sapienza Università di Roma. Crede nelle parole ben scritte che seducono per le sue significate in cui rivelano la poetica della vita.)

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