Um encontro virtual liderado pelo cineasta Silvio Tendler foi o despertar do torpor, do estado catatônico, para ação contra o desmonte cultural no país. Um socorro urgente!

Mais de 100 profissionais que atuam na área cultural de todas as regiões brasileiras participaram deste primeiro chamamento.

  A finalidade principal é evitar a destruição total de “nossa “superestrutura cultural e ideológica e fragilizar-nos como nação.  Por que não lutamos para recriação do Ministério da Cultura?”, questiona Silvio Tendler. 

A partir deste raciocínio o cineasta lançou um manifesto de convocação e pelo qual coloca às claras todos os desmandos do governo atual, a começar pelo descaso à pandemia e a falta de políticas públicas para evitar o crescimento do número de mortos por Clovid 19.

Silvio Tendler é um dos mais renomados documentaristas brasileiros e produziu filmes que são relatos e análises preciosas dos mais importantes momentos da história, da política de nosso país.  Filmes memoráveis como Jango, Os anos JK, Militares da democracia, Privatizações: a distopia do capital e O veneno está na mesa.

A frase de Andy Warhol ao lado, irônica, nos faz pensar no papel do artista e da arte na vida das pessoas. Que seríamos de nós sem a arte, em  diversas manifestações, cinema, literatura, música, artes plásticas, nesta pandemia, solitários em nossa casa?

 

Portanto, por que não recriarmos um Ministério da Cultura?  Esta foi a pergunta lançada para todos os participantes do encontro virtual depois da leitura do manifesto, feita pelo ator Eduardo Tornaghi. Uma ideia aprovada por unanimidade, embora desdobrada em opiniões de que o nome deveria ser mais abrangente. Optou-se por Estados Gerais da Cultura.   

“É um tanto surrealista criar um Ministério da Cultura paralelo”, disse Silvio Tendler dado momento do encontro virtual.  

Sem dúvida, a situação em todas as áreas da política brasileira é surrealista. Nunca em nossa história tivemos um retrocesso tão grande na área cultural de nosso país e destruição dos direitos adquiridos pelo povo, além de uma pandemia de dimensão global nunca antes vivida no mundo. 

A tomada de posição por parte de Tendler remete ao movimento surrealista criado por André Breton, num período difícil na França, 1924, entre guerras. Leia mais aqui sobre Surrealismo. Com isso, até hoje, o surrealismo está presente e não perdeu atualidade. Salvador Dalí foi um ícone do surrealismo. 

Quem não conhece a obra “Persistência da Memória”. Significativa no título e nas imagens. A memória que regimes autoritários desejam destruir sem deixar vestígios.

 

“É pela arte que conseguimos manter a saúde psíquica, o conhecimento.”, foi um dos pontos destacados pelos participantes no encontro virtual. 

É isso aí mesmo Silvio. A arte tem vida eterna e podemos comprovar pela História da Arte que é memória de toda a trajetória da humanidade.

“Uma elite gananciosa que quer tudo e um povo que vive com quase nada, frequenta um SUS fragilizado há anos e escolas ineficientes, fruto do congelamento de investimento público. Arte, cultura e ciência assediadas pela censura econômica e política e por uma doutrina terraplanista.

Volta Galileu e vem educar esta gente!

A extinção do Ministério da Cultura é a tentativa de destruir nossa superestrutura cultural e ideológica para fragilizar-nos como nação. E o que caracteriza o povo é a sua cultura. Um país não se limita às suas fronteiras físicas e geográficas “, inicia o manifesto

 

Na verdade, o encontro virtual de domingo foi um momento histórico para o que representa a cultura no Brasil. Certamente!

A alegria que é a marca registrada do brasileiro não pode perder-se nos rigores de pensamentos moralistas e inquisidores.

Não podemos retroceder e permitir que manipulem nossas mentes a exemplo do que aconteceu em momentos da história. 

Hitler usou a arte como ferramenta de lavagem cerebral e por intermédio de filmes e proibição de leituras  construiu a juventude hitletrista em todo o mundo. Até no Brasil tivemos agentes tentando criar adeptos a ele. Leia mais aqui em Piás de Hitler.

As duas fotos de Silvio Tendler com frases recados foram retiradas do Instagram, no perfil Caliban.

É uma empresa de multimídia, fundada em 1981, produtora e distribuidora de cinema e vídeo, especializada em filmes de cunho social, da qual Silvio Tendler faz parte.

 “A reconstituição do Ministério da Cultura como Organismo de Estado, independente da ingerência de governos, é URGENTE e NECESSÁRIA. Muitos nos perguntam como isso será possível diante de um governo como o que temos. Qual a possibilidade concreta de sairmos vitoriosos neste embate? “

Na íntegra o manifesto:

Uma elite gananciosa que quer tudo e um povo que vive com quase nada, frequenta um SUS fragilizado há anos e escolas ineficientes, fruto do congelamento de investimento público. Arte, cultura e ciência assediadas pela censura econômica e política e por uma doutrina terraplanista.

Volta Galileu e vem educar esta gente!

A extinção do Ministério da Cultura é a tentativa de destruir nossa superestrutura cultural e ideológica para fragilizar-nos como nação. E o que caracteriza o povo é a sua cultura. Um país não se limita às suas fronteiras físicas e geográficas.

Somos milhões de trabalhadores da cultura paralisados, dispersos ou desempregados. O governo flerta com o totalitarismo e nos intimida com o poder miliciano.

Estamos vivendo uma das maiores crises sanitárias de todos os tempos. Pandemia trágica para milhares de famílias brasileiras, em especial para as mais humildes, completamente abandonadas pelo poder central.

Recolhidos em nossas casas, velhos e novos filmes, músicas e atividades artísticas nos fazem companhia nessa solidão imposta pela pandemia. Nesse momento, as pessoas percebem a importância da arte em suas vidas.

 

Queremos um mundo em que o Estado seja voltado para o bem-estar de seus cidadãos e cidadãs, ou que seja voltado para facilitar a acumulação de bens de uns poucos milionários? Qual será nossa relação com a natureza, convívio harmônico ou exploração predatória como tem sido até agora?

O futuro é nosso, cabe a nós decidir.

 

‘Estados Gerais da Cultura’ é um movimento coletivo, autônomo e independente, para atuar na construção desse futuro; somos os verdadeiros protagonistas da nossa História.

Que futuro queremos no mundo que emergirá da pós-pandemia? Um mundo solidário em que a centralidade seja o ser humano e a natureza ou continuaremos reféns do cassino financeiro? A reconstrução do Ministério da Cultura é apenas um primeiro passo necessário para o restabelecimento da nossa unidade como agentes culturais.

Hoje, assistimos ao desmantelamento da Cinemateca Brasileira, matriz da memória imagética do país; desmantelamento da Casa de Rui Barbosa, importante centro de documentação, pesquisas, reflexão e documentação; intervenção no IPHAN permitindo a degradação do nosso patrimônio arquitetônico a serviço da especulação imobiliária; o silenciamento da FUNARTE e das suas atividades ligadas às artes plásticas, dança, fotografia; e a Ancine, com o sequestro do FSA-Fundo Setorial do Audiovisual, deixando a atividade quase que totalmente paralisada.

Hoje, somos milhões de trabalhadores desempregados num setor que gera arte, cultura e entretenimento, além de dividendos para o país. O MInistério da Economia é incapaz de enxergar a indústria criativa como um setor altamente rentável, que gera recursos e prestígio internacional para o Brasil.

A reconstituição do Ministério da Cultura como Organismo de Estado, independente da ingerência de governos, é URGENTE e NECESSÁRIA. Muitos nos perguntam como isso será possível diante de um governo como o que temos. Qual a possibilidade concreta de sairmos vitoriosos neste embate?

Respondo: homenageando Therezinha Zerbini e dizendo que lutaremos com a mesma humildade e tenacidade que a levaram à luta pela Anistia no auge da ditadura, ou a lucidez que levou o jovem deputado Dante de Oliveira a lutar pelas Diretas Já.

Somos artistas, sabemos fazer arte e nos comunicar com o público. Essa é nossa especialidade. Cada um da sua forma, com a técnica e a estética que tiver à mão, saberá falar da importância da nossa luta: fazendo teatro na rua ou na rede, filmes que viralizam nas mídias eletrônicas; grafitando, se apresentando nas comunidades ou onde for, combateremos a política de terra arrasada e começaremos a construir um mundo novo.

A reforma trabalhista, que nos prometia milhões de empregos e gerou milhões de desempregados, além do enfraquecimento dos sindicatos e da perda dos direitos dos trabalhadores resultou no enfraquecimento da previdência. Só cortaram direitos dos mais pobres, preservaram os privilégios dos mais ricos, o que nos leva a temer pelo nosso futuro.

Pensemos no ano de 2022, não pelo processo eleitoral que vai se estabelecer mas pela comemoração do bicentenário da Independência, pelo centenário da Exposição Universal e pelo centenário da Semana de Arte Moderna que projetaram o Brasil no século XX.

Nós, trabalhadores da Arte e da Cultura, juntos com historiadores, sociólogos, geógrafos, sindicalistas, militantes comunitários, de gênero, e de quem mais quiser tomar seus destinos nas próprias mãos será bem vindo.

Portanto, conclamamos a todos: com arte, ciência e paciência, mudemos o mundo.

A convocação do Estado Geral da Cultura tem como objetivo colocar na mesma sala, de forma espontânea, pessoas das mais diversas áreas de atuação do conhecimento interessadas no avanço rumo a um futuro de bem- estar social para todos, tendo como alavanca a ação artística e cultural. Convocamos todos a ser protagonistas da própria História, através de seus meios de expressão e ação. Tudo o que as ferramentas tecnológicas permitem utilizemos como instrumento de conscientização, luta e fortalecimento respeitando as nossas tradições e nosso patrimônio étnico-cultural.

Como disse o jornalista italiano Walter Veltrone, o passado é confortável, mas o único lugar que nos abrigará é o futuro. Assim, que o façamos justo e prazeroso para todos. Com arte, ciência e paciência construiremos um mundo melhor.”

 
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