No meio de tantas notícias ruins, a pandemia também tem trazido momentos interessantes. É irônico dizer, mas fico feliz por meus avós não fazerem mais parte desta vida.

Viver o isolamento social, seria algo tão difícil para eles que precisavam tanto dos familiares por perto.Pensando nisso, me lembrei da morte da minha avó, que como toda perda de alguém que amamos foi triste, mas que gostaria de contar um pouco aqui, pois por mais estranho que pareça, me recordo dando risada.
 
Minha avó materna esteve anos adoecida com mal de Alzheimer. Quando foi diagnosticada com a doença foi muito triste para todos os filhos e netos. Sua memória sendo apagada tornava a convivência com a perda, morte e luto a cada dia, por anos de nossas vidas. O medo também fez parte de nossa caminhada por um tempo, medo de vermos nossos pais repetirem este diagnóstico ou mesmo nós os netos, sendo marcados por este destino assustador em um futuro.
Mas enfim, a morte propriamente dita efetivamente chegou. O dia que recebi a notícia do falecimento de minha avó , estava em uma conexão, no meio do caminho para minha cidade natal. Tomando um café com pão de queijo no aeroporto, chorei sozinha naquele momento e me senti muito solitária. Desejei estar perto da minha família.
Enfim, de certa forma, foi um misto de tristeza, mas também de alívio por saber que minha avó querida não estava mais presa naquele corpo e cérebro que não tinham mais suas funções adequadas para viver e a família que sempre foi muito unida, tinha se tornado um caos nas relações.
Estávamos tristes pela forma como tudo que tinha acabado. Com esta doença, não só a vida da minha avó foi terminando, mas também a união da família foi colocada em “xeque”. Porém, a questão mais estranha que aconteceu, que me fez escrever esta crônica, foi o dia do seu velório e consequentemente o enterro.
O velório como todos, acabou sendo um evento de família, onde pude encontrar tantas pessoas que há tempos não via. Quando olhei para minha avó no caixão, assim como o momento de despedida, antes do enterro e o próprio enterro, me causou uma grande dor. Chorei imensamente, chorei a tristeza de saber que há anos já não tinha minha querida e alegre vó, chorei por saber que nunca mais poderia abraçar e sentir aquele cheirinho delicioso que só ela tinha no aperto de nossos corpos.
Mas por outro lado, os demais momentos do velório foram de muita conversa e em quase todas as horas que lá estivemos, além das conversas muitas lembranças, piadas regadas com muito riso  e até com direito a gargalhadas entre primos, tios e familiares próximos. Disfarçávamos para manter a postura diante de conhecidos que chegavam para dar os pêsames, já que a morte para todos queria dizer algo muito triste.
O dia passou, o enterro aconteceu e naquele dia também estava marcada a comemoração do aniversário da minha tia. Resolvemos manter o evento, que incluía apenas os familiares próximos.
Apesar do momento de despedida triste sabíamos que aquele dia era esperado e minha tia merecia uma comemoração.
Nos reunimos mais tarde e o mais engraçado foi quando minha mãe disse: “Gente podem tirar fotos, mas não postem nada hoje nas redes sociais…” Tínhamos feito postagens de aviso da morte da minha avó nas últimas 24 horas e agora íamos postar fotos comemorando? Um tanto estranho para uma sociedade que julga sem saber o que está acontecendo de fato.
Enfim nos divertimos, rimos e brindamos o aniversário, mas também o adeus de minha querida avó que já estava cansada de viver daquela forma.
Errado ou certo, não sei dizer o que é. Para nós foi um momento lindo, divertido e emocionante. Foi necessário e verdadeiro. E sabemos que se ela estivesse junto, estaria rindo conosco.
 
Contudo, é com a ternura do amor e respeito que sempre tive pela minha avó que termino este texto e com o qual deixo também este respeito a um mundo inteiro que sofre suas perdas, sejam elas quais forem.
Que os dias estranhos em que vivemos, sejam ressignificados e cada um possa encontrar a força naquilo em que mais acredita para atravessar esta etapa.
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