Cinema reflete a realidade e faz dela um sonho

História da Caricatura Brasileira. Parte I
2 de julho de 2016
História da Caricatura Brasileira. Parte II
8 de julho de 2016
Exibir tudo

 

A cineasta francesa Claire Denis encontrou no cinema um modo de viver  o sonho.

“O cinema reflete a realidade, mas se comunica como algo da imaginação, como um sonho”, afirmou a cineasta sobre a sétima arte, e disse mais: “a vida é real e precisamos acrescentar bastante fantasia para aguentar o que é insosso nela”.

Sagaz, sensível, a cineasta confessa que chegar ao limite, até a fronteira do desconhecido  sempre foi  para ela algo instigante ou irritante. Uma ideia mágica. Um de seus filmes “O Intruso” – a  história de um homem de 70 anos, que precisa fazer um transplante cardíaco para continuar vivendo, ultrapassa a fronteira que tanto a fascina.

“Um coração que penetra nas fronteiras internas das defesas do corpo humano”.

Claire Denis revelou que não tinha vontade de escrever o roteiro na época. O filme foi lançado em 2004, no entanto depois  que leu o livro do filósofo Jean-Luc Nancy sobre imigração na França, que relata a sua própria experiência com um transplante cardíaco feito há mais de 15 anos, pediu autorização para escrever o cenário. “Vou tentar fazer uma ficção, escrever essa viagem de alguém que vive com a morte do outro”, contou.

O Intruso

“O Intruso” para ela  foi o filme mais  difícil de fazer de todos outros que produziu. Segundo revelou, é mais fácil fazer a pesquisa de qualquer outra história, do que filmar uma operação cardíaca, sobretudo quando ela própria se obrigou a assistir de fato para realizar as cenas. “Impressionante ver o cirurgião abrir o peito, afastar as costelas e no meio tem um coração, que depois de ligar as artérias num tubo, é jogado no lixo e em seguida pegar outro novo dentro de uma caixa de sorvete, como aquelas que levamos a um pic-nic. É como assistir Ilíada e Odisséia, de Homero”, relata.

“O cirurgião não percebe essas sutilezas que um ser humano normal sente ao ver um peito vazio e ver também um outro coração. É coisa pavorosa”, entendeu. “Não vou filmar isto porque para filmar precisamos abrir o peito do ator, é melhor abrir o filme e fazer uma elipse sobre a história”, pontuou.  Filha de pais franceses e nascida e criada na África, agora com mais de 60 anos diz que fazer um filme não a torna mais forte, ao contrário, a deixa mais frágil e sensível.

A Chefe

“Quando comecei a fazer filme me sentia a chefe. Com o desenrolar das cenas a situação gira lentamente e se apresenta de fato.É nesse momento que  a minha relação  de poder com ele fica cada vez mais fraca. É bom porque muda a relação de estar possuindo para compartilhar sentimentos  e devaneios”

Ao explicar o que entende por documentário, é categórica e afirma que um documentário não é reportagem, exige do diretor um risco, uma aventura, exploração e participação. “O documentário deve ir além da simples curiosidade”.

Para definir o seu conceito da fronteira entre a ficção e realidade, ela dá o exemplo de alguém estar sozinho no cais,  na beira do Tejo, em Portugal, perto da Torre de Belém, sentado numa manhã de vento e vê um ponto escuro no horizonte, um transatlântico chegando.

“O tempo que leva para o navio de luxo chegar gira lentamente na mente. É nesse momento que começa a ficção. Aí ele pode escrever fantasias, a história inteira de Portugal, conquistas, descobertas, no fim desta poesia o barco chega ao porto e nisso passou-se uma hora. Essa é a ideia mágica da fronteira”.

  • reportagem republicada do PanHoramarte baseada na palestra de Claire durante o encontro de jornalismo cultural, em São Paulo, em 2011.
Filmes de Claire Denis:

> Chocolate (Chocolat, 1988). Jovem francesa retorna para Camarões, onde viveu com sua família, para contemplar e relembrar a infância.

> Dane-se a Morte (Se’en Fout la Mort, 1990). A vida de dois irmãos imigrantes da África que vivem de rinhas de galo no subúrbio de Paris.

> USA Go Home (US Go Home, 1993). A história de duas adolescentes parisienses, uma festa e as tensões sociais e sexuais que envolvem o evento.

> Noites sem Dormir (J’ai pas Sommeil, 1994). Um mosaico da juventude contemporânea numa Paris multicultural, violenta e obscura.

> Nénette e Boni (Nénette et Boni, 1996). Dois irmãos de criação tomam rumos diferentes, se reencontram e agora terão de se redescobrir.

> Bom Trabalho (Beau Travail, 1999). Um passeio coreográfico pelo campo de treinamento da Legião Francesa, no nordeste da costa africana, que mostra o universo repressor e os conflituosos sentimentos de um sargento. Livremente inspirado no romance Billy Budd, de Herman Melville.

> Desejo e Obsessão (Trouble Every Day, 2001). Americano que vai passar lua de mel em Paris começa secretamente a frequentar uma clínica médica que trata da libido e se deixa levar por perigosos impulsos sexuais. Com Vincent Gallo.

> Sexta-feira à Noite (Vendredi Soir, 2002). Presa num engarrafamento, mulher observa o caos da cidade de Paris e oferece carona para um estranho.

> O Intruso (L’Intrus, 2004). Homem de 70 anos que mora sozinho com seus cachorros em uma floresta entre a França e a Suíça precisa de um transplante de coração e vai até o Taiti procurar o filho que abandonara muitos anos antes.

> 35 Doses de Rum (35 Rhums, 2008). Releitura do clássico Pai e Filha, do diretor japonês Yasujiro Ozu, sobre as tensões sociais a partir da relação entre um pai viúvo e sua filha na periferia de Paris.

> Minha Terra, África (White Material, 2009). Em um país africano não definido e que vive em guerra constante, mulher branca se nega a deixar para trás sua plantação de café e passa a correr risco de ser assassinada pelos rebeldes. Com Isabelle Huppert

Comentários Facebook

comentarios

Mari Weigert
Mari Weigert
Mari Weigert é jornalista com especialização em História da Arte pela Escola de Música e Belas Artes do Paraná. Atuou na área de cultura, como jornalista oficial do Governo do Paraná. Durante um ano participou das aulas de Crítica de arte de Maria Letizia Proietti e Orieta Rossi, na Sapienza Università, em Roma como aluna ouvinte. Acredita que as palavras bem escritas educam e seduzem pelos seus significados que se revelam na poética da vida. *IN ITALIANO (Mari Weigert è giornalista e perfezionata in Storia dell' Arte per la Embap, del Brasile. Durante un anno è stato alunna di Critica d'Arte, alla Sapienza Università di Roma. Crede nelle parole ben scritte che seducono per le sue significate in cui rivelano la poetica della vita.)

Os comentários estão encerrados.