O filme “Meia noite em Paris” divide opiniões

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20 de maio de 2014
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A magia de embarcar num carro à meia noite na fascinante Paris e voltar no tempo ao se encontrar com Matisse, Ernest Hemingway, e outros grandes ícones da história da literatura, artes plásticas e música, não seduziu totalmente o público jovem no filme “Meia noite em Paris”, de Woody Allen.

Alguns até se decepcionaram, como é o caso da estudante de jornalismo do Piauí, Paula Pires, atualmente assessorando a Fundação de Apoio Cultural do Piauí (Fundapi). Ela revela que esperava mais de uma película assinada pelo conceituado diretor americano.

“O filme ficou no meio do caminho. Woody Allen, com mais de 50 anos de direção, poderia ter ido muito além. Para mim, o que ele apresentou é pouco”, analisou ela. A jovem psicóloga curitibana, Paula Braga, também considerou o roteiro do filme corriqueiro e sem grandes expectativas. “Tem boas imagens, lida com fantasia de conviver com personagens famosos na história da arte, mas não convence como melhor filme do ano”.

Um público mais velho

Em contraponto, outro público, que pertence a faixa etária acima dos 40, considerou o filme um autêntico entretenimento, com um roteiro de bom gosto, intelectualizado, saboroso em recados dissimulados, nas entrelinhas, características estas que fixaram a marca do cineasta. Este público se deixou levar pelo encantamento e embarcou nas fantasias de Allen para viver os melhores “tempos de Paris”. A advogada curitibana, Lucia Stall faz parte deste grupo, assim como o jornalista e escritor também de Curitiba, Cristovão Tezza.

Sensibilidade e cores

“Quem não sonha em encontrar e conversar com Ernest Hemingway, Gertrude Stein, Matisse e também ir aos cabarés da Belle Epoque, ver Toulose Lautrec e suas dançarinas. Woody Allen realiza este sonho em Meia Noite em Paris. No mínimo injeta um pouco de cultura em nossos jovens que estão muito longe destes mundos de sensibilidade e cores”, afirma Lucia.

“Na verdade, é um mundo de criação e de individualidades que penetra no mundo lugar comum do segundo milênio, bem representado pela família americana carregada de clichês consumistas. Pensar em Picasso e sua genialidade, acrescido de Fitzgerald e sua mulher tresloucada Zelda, é uma viagem e tanto”, complementa a advogada.

Flanar por Paris

“Como viajar é o meu forte, o filme me deu a oportunidade de rever os personagens que criaram personagens na minha vida e assisti-lo foi, na verdade, uma experiência adorável – como “flanar” por Paris, como dizia Baudelaire”.

No caso de Tezza, o jornalista imprime sua crítica ao filme, no artigo Uma tarde em Curitiba. Eis alguns trechos: “Comprei ingresso de Meia-noite em Paris, de Woody Allen, e foi uma escolha feliz…. Um filme delicioso e sem arestas, saborosamente infantil, povoado de crianças adultas…. Tudo tem graça e leveza – não é história que se conta, enfim irrelevante e comum, mas o clima que se vive, transportando-nos a um sonho divertido e sem susto”.

Liberdade de poder expressar opinião

Mais importante de apreciar ou não um filme é a liberdade de poder expressar opinião sem medo de se tornar piegas. Não é mais heresia revelar uma opinião que não coincide com a da crítica especializada ou do grande público que garantiu o sucesso de bilheteria. Neste vasto universo on-line, as pessoas encontram eco em seus pareceres e podem abrir espaço para expor idéias e argumentar de forma convincente.

Os sucessos de bilheteria não são mais tão induzidos pela mídia comercial e sim pela opinião popular postada em blogs, redes sociais e sites individuais. A jovem jornalista Paula Pires, que cursa Comunicação Social na Universidade Federal do Piauí (UFPI), premiada no concurso de reportagem “Repórter Super Top”, da emissora piauiense Meio Norte, está para provar a veracidade da situação. No seu entendimento e análise a produção de Woody Allen deixou a desejar e a partir daí construiu sua argumentação que vale a pena ler para entender o outro lado da crítica.

Meia Noite em Paris: no meio do caminho
Texto: Paula Pires

“Com aproximadamente 50 filmes dirigidos, Woody Allen parece não deixar de pôr seus conflitos pessoais numa trama, sejam eles envolvendo relacionamentos amorosos, existenciais ou temporais. Até aí, tudo certo: não é pecado externar, de forma artística, seu universo interior.

Mas o que dizer quando uma trama faz você se perguntar, durante boa parte do filme, o que teria levado o diretor da película a fazer um ensaio de uma peça teatral em vez de mostrar um filme capaz de provocar uma reflexão (in)consciente sobre os fatos expostos?

Depois de assistir ao filme, li a crítica especializada. A maioria dos críticos de cinema qualifica-o como o melhor filme do ano. Se o melhor filme do ano me fez sair da sala de cinema com a consciência pesada por não ter feito nada melhor do que passar cerca de uma hora e meia vendo um ator (Owen Wilson) perdido, tentando encontrar um rumo, definitivamente, não sei o que significa o vocábulo “o melhor”.

No enredo do filme, uma trama com tudo para vingar: um jovem casal de noivos viaja a Paris – a moça (Inez) é interpretada por Rachel McAdams; o rapaz (Gil), roteirista bem-sucedido, é interpretado por Owen Wilson – acompanhando os pais de Inez, que estão em Paris a negócio.

Cidade Luz

No decorrer dos acontecimentos, Gil se mostra deslumbrado com a Cidade Luz, afirmando ser o lugar ideal como fonte de inspiração para suas aspirações de escritor, já que decidira escrever romances ao invés de roteiros. Inez, frustrada com as decisões incertas do noivo, passa a maior parte do tempo com um casal de amigos, sempre o tratando com desdém pelas “maluquices” de tornar-se um romancista famoso. O certo é que, sentindo-se só e mal compreendido, Gil se aventura pelas ruas de Paris, encontrando sempre às meias-noites um carro que o leva ao que ele considera “os melhores tempos” de Paris. Esse tempo, início do século XX, o faz conhecer seus ídolos literários: Scott Fitzgerald e Ernest Hemingway, entre outros.

Nessa volta ao passado, Gil encontra também legendas das artes plásticas, como Pablo Picasso e Salvador Dalí e tem um affaire com uma personagem fictícia da trama, chamada Adriana. Não sei se por falta de uma maior identificação do ator Owen Wilson com o personagem Gil ou de mais ousadia por parte Allen, o filme que poderia ser realmente genial, torna-se um drama sem novidades, muito abaixo do razoável. Não resiste, por exemplo, a uma comparação com outras películas envolvendo ícones da literatura como Pablo Neruda, no admirável “O Carteiro e o poeta”, dirigido por Michael Radford, na Itália, em 1994.

Afora as belas imagens de Paris e algumas interpretações convincentes, “Meia em Noite em Paris” é mais um dos filmes de Wood Allen que ficaram no meio do caminho. Com a experiência de quase 50 anos de direção, Woody Allen poderia ter ido muito além. “Para mim, o que apresentou é pouco”.

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Mari Weigert
Mari Weigert
Mari Weigert é jornalista com especialização em História da Arte pela Escola de Música e Belas Artes do Paraná. Atuou na área de cultura, como jornalista oficial do Governo do Paraná. Durante um ano participou das aulas de Crítica de arte de Maria Letizia Proietti e Orieta Rossi, na Sapienza Università, em Roma como aluna ouvinte. Acredita que as palavras bem escritas educam e seduzem pelos seus significados que se revelam na poética da vida. *IN ITALIANO (Mari Weigert è giornalista e perfezionata in Storia dell' Arte per la Embap, del Brasile. Durante un anno è stato alunna di Critica d'Arte, alla Sapienza Università di Roma. Crede nelle parole ben scritte che seducono per le sue significate in cui rivelano la poetica della vita.)

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