Afetos acolhem nosso coração e preenchem o vazio existencial. O amor incondicional dos animais pelo seu dono é parte dessa acolhida.

Hoje a casa está mais quieta.

Não tenho com quem desabafar depois que a casa toda já pegou no sono, não vou ouvir os passos dela se aproximando da cama pra dormir ali do lado, o barulho das unhas quando ela andava de um lado pro outro no meio da noite não vai mais incomodar.

Hoje me despedi da minha grande amiga, minha parceira de todas as horas, Mandioca.

Mesmo sabendo que era a hora dela e que eu não podia fazer mais nada, a dor é insuportável.

Desde janeiro lutando, ela ficou muito abatida nas últimas semanas e já não respondia mais aos tratamentos. Se mostrou uma guerreira e foi muito além das expectativas. O câncer venceu, mas não foi ela quem perdeu.

 

 

Perco eu, que tive uma cachorra carinhosa demais, que abanava o rabo só de olhar pra ela. Nunca consegui que ela não pulasse em quem vinha nos visitar, era seu jeito feliz de ser. Perco eu, que aprendi tanto sobre amor, sobre cuidar e se dedicar pra alguém sem esperar nada em troca, ela não queria mais nada, estar junto de nós bastava.

Perde minha filha, que abraçava tranquilamente uma cachorra três vezes o tamanho dela e dizia “a Mandioca é tão fofa né“. Perdem meus dois pequenos, que só conviveram com ela nesse começo de vida e terão que aprender algumas lições de amor de outras formas. Perde minha esposa, que fica com o marido em pedaços e fará de tudo pra juntar novamente. E novamente perco eu, que lutei ao seu lado tentando equilibrar tudo achando que era possível ter pra sempre ela junto de mim.

O café da manhã já não será com o “quer comer, Mandioca?” Prepararei em silêncio, só lembrando dela ali do meu lado.

Senta, deita, rola, busca… fazia qualquer coisa por comida. Não precisamos mais esconder o nosso prato pra ela não roubar o bife… Mas como eu queria que ela desse um jeito de roubar o meu amanhã.

Hoje quando apagar as luzes da cozinha vou falar baixinho “vamos subir, Mandioca?” Só pra não perder o costume.

Obrigado por tudo grandona!

Sei que sua luta foi por nós, foi por mim.

Sei do seu amor e aproveitei ele o quanto pude.

Vá em paz.

Te amo!

Esta mensagem foi compartilhada pelo meu genro Leandro quando perdeu Mandioca, uma cadela da raça Golden, com oito anos de vida. Palavras singelas e verdadeiras que deixaram todos do grupo da família que a leram, com os olhos marejados de lágrimas.

Os animais são os nossos sublimes afetos, junto com as crianças. Criança e bichinhos nos proporcionam alegres e ternas horas, muitas vezes inesquecíveis. 

Nestes momentos voltamos a ser crianças também.  Vale lembrar Pablo Neruda.

“A criança que não brinca não é criança, mas o adulto que não brinca perdeu para sempre a criança que vivia dentro dele”.

 Alguns dicionários definem afeto como um sentimento de amor e de amizade, como o  nosso Aurélio.  

Para italiano Devoto-Oli é affeto é um sentimento motivado pela experiência humana por meio dos relacionamentos sociais. 

Uma palavra de origem latina – affectus,  desejo, vontade, inclinação.

Todo esse blá-blá  é apenas para fazer uma conexão poética sobre amor incondicional entre um bichinho de estimação e o ser humano.

Eles transmitem afeto e alimentam a nossa carência pela falta do toque, do abraço, da convivência  com nossos familiares e amigos. Desanuviam nossa mente e nos distraem com as  suas peripécias e traquinagens diárias, como seres puros deste universo.

Amonrá meu gatinho, que viveu 16 anos comigo é inesquecível. Com nome de faraó Amon-Rá, parecia um biscuit renascentista.

Adorava ficar no meu colo aconchegado enquanto eu escrevia ou se acomodava em cima da Tv, ainda de caixote, quando a família assistia e seu rabo balançava de lá para cá feito um pendulo.  Amonrá ficou muito perdido quando apareceu a TV de tela plana. 

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