Artistas russos cancelam a participação na 59º Bienal de Veneza e decidem manter fechado o Pavilhão da Rússia.

O curador  Raimundas Malasauskas anunciou que estaria renunciando ao projeto da bienal para o Pavilhão, seguido pelo apoio dos artistas Alexandra Sukhareva e Kirill Savchenkov, que estavam juntos nesse trabalho de criação.

“Não posso avançar no trabalho neste projeto à luz da invasão militar da Rússia e do bombardeio na Ucrânia. Isso era política e emocionalmente insuportável. Como você sabe, nasci e me formei na Lituânia quando fazia parte da União Soviética. Eu vivi a dissolução da União Soviética em 1989 e testemunhei e apreciei o desenvolvimento do meu país desde então. A ideia de voltar a viver sob um império russo ou qualquer outro é simplesmente intolerável”, afirmou Raimundas em sua carta demissionária.

Mudança de Cena- Pavilhão Russo da Bienal de 2017.

As reações são percebidas pelas redes sociais e  Kirill Savchenkov, nascido em 1987 em Moscou, não deixou por menos e corajosamente colocou seu ponto de vista. “Não há nada a dizer, não há lugar para a arte quando civis morrem sob bombas, quando a população ucraniana se esconde em abrigos, quando dissidentes russos são silenciados. Como russo, não apresentarei meu trabalho no Pavilhão da Rússia na Bienal de Veneza”.

O Leite dos Sonhos é o título da Bienal de Veneza 2022. Este nome é emprestado de um livro de Leonora Carrington no qual, segundo a curadora da 59ª Exposição Internacional de Arte Cecilia Alemani, “a artista surrealista descreve um mundo mágico onde a vida é constantemente repensada pelo prisma da imaginação, e onde todos podem mudar, ser transformados, tornar-se algo e outra pessoa.”

“Esta exposição está alicerçada em muitas conversas com artistas que aconteceram nos últimos meses. As questões que vão surgindo parecem capturar esse momento da história, em que a própria sobrevivência da espécie está ameaçada, mas também resumir dúvidas que permeiam as ciências, as artes e os mitos de nosso tempo. Como está mudando a definição do humano? O que constitui a vida e o que diferencia animais, plantas, humanos e não humanos? Quais são nossas responsabilidades para com o planeta, outras pessoas e os outros organismos com os quais vivemos? E como seria a vida e a Terra sem nós?” Fonte:  Bienal 

O que seria o projeto de Raimundas Malašauskas  no Pavilhão Russo:

“Coreografada como uma cena de gestos, a apresentação de Kirill Savchenkov e Alexandra Sukhareva na 59ª Bienal de Veneza é uma tentativa de abordar a complexidade dos tempos corporais, materiais e tecnológicos. Evoca uma transição de um estado para outro, um fluxo retorcido entre futuro e passado, uma divisão suspensa entre morto e vivo (e IA), dia e noite. Deslizando entre linguagens e representações, parando na memória social mais recente, congelando na antecipação de coisas imprevistas, preparando-se para o amanhã – seja catastrófico ou brilhante, ou ambos.”

“Mudança de Cena” foi o tema do Pavilhão da Rússia em 2017 e cabe exatamente aqui neste artigo para ser lembrado.  Segundo o conceito,  o tema envolvia o mundo contemporâneo, de Palmira, na Síria a Nova York, nos EUA. 

A obra é uma metáfora de uma nova ordem mundial, das quais as agressões, o terror,  a vida irracional das massas, estratégias sem precedentes de controle e  vigilância permeiam a vida do homem.

Em um espaço pouco iluminado, a exposição apresentava obras de quatro artistas russos.
No nível de entrada, o pavilhão mostravam-se várias esculturas de Grisha Bruskin (n. 1945); uma águia de duas cabeças, bonecos estranhos, homenzinhos marchando, soldados, andróides misteriosos meio humanos e meio mecânicos, figuras em miniatura e símbolos comunistas são acoplados a projeções de vídeo semelhantes a lanternas mágicas e som para criar uma instalação estranha focada no conceitos de poder, medo e controle das massas.

Descendo para o nível inferior, o pavilhão continha uma instalação escultórica do Grupo Recycle (Andrei Blokhin, nascido em 1987, e Georgy Kuznetsov, nascido em 1985). Intitulada Blocked Content, a obra é composta por volumes pontiagudos de onde emergem dramaticamente rostos, mãos e partes do corpo (ou são aprisionados) e por um aplicativo móvel de realidade virtual Inspirada na Divina Comédia de Dante, a instalação questionava o conceito de web ética, a moralidade da inteligência artificial e a ilusão de uma imortalidade digital.

 

Raimundas Malasauskas
Pavilhão da Russia - Bienal 2017
3 de março de 2022

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