Engana-se quem pensa que humor não deve ser levado a sério.

Latuff, Aroeira e Laerte mostraram muito bem que o tom é de seriedade quando o humor é uma crítica social ou política. Os três cartunistas estiveram reunidos num memorável encontro  virtual realizado pelos Estados Gerais da Cultura – movimento contra o aniquilamento cultural do país.

Numa conversa descontraída entre música e poesia e intermediada pelo anfitrião e criador do EGC, o cineasta Silvio Tendler, os convidados falaram sobre humor como ferramenta de resistência em todos os contextos ideológicos.

Tanto Aroeira como Laerte reconheceram o cuidado que se deve dar no alinhamento da produção criativa, isto é, uma charge que poderá ser tensa e ao final se transformar em arma para oposição. Laerte contou que no princípio de sua carreira achava que humor era anti-ditadura e tinha um alvo simples e objetivo, de derrubar o sistema autoritário. 

No entanto, a criação de novos partidos no processo de democratização  revelou um outro perfil do cartunista no Brasil. “Passei a entender o humor como uma linguagem mais permeável a todas as movimentações ideológicas que uma sociedade pode passar”,  reconheceu a cartunista. 

“Como humor corteja de muitas maneiras e formas as ideias que já estão na cabeça das pessoas, é muito frequente que se produza charges conservadoras e preconceituosas”.   A mesma preocupação tem Aroeira. “O humor consegue trabalhar com toda a experiência humana e pode ser extremamente preconceituoso. Daí a necessidade de duplicar a atenção”. 

Aroeira foi alvo recentemente de uma tentativa de censura por parte do governo com uma charge que produziu ao fazer uma suástica ensanguentada associada ao presidente, em função do número crescente de mortes por Covid 19 no país.  O caso ganhou repercussão nacional e internacional e ele recebeu apoio e solidariedade de chargistas do mundo inteiro. 

 “O humor é uma ferramenta tão ampla que pode servir para luta política, como também para reflexão”.  Cita Laerte como exemplo na criação de um humor de reflexão. “Laerte tem a capacidade de retirar um tema lá do fundo e trazer para um desenho fantástico e que, ao final, é uma tremenda piada. Latuff também é um tremendo militante.  O cara desenha de barricada. É arte diretamente da trincheira”.

Aroeira confessa que se coloca no meio do caminho, nem tanta barricada e nem muita reflexão. “O humor é uma das ferramentas críticas das mais interessantes que conheci e poderosa. Tem um ditado latino, ‘ridendo castigat mores’, rindo você castiga mais. Humor é chibata mesmo”.

 

O cartunista Carlos Latuff é um artista mais combativo e questiona se a sua charge transita no patamar do humor. Ele prefere se apresentar como cronista visual da barbárie. Seu humor é corrosivo e denuncia as mazelas de uma sociedade  injusta, seja em democracia ou regimes autoritários.

A censura sempre existiu para ele, seja em qual fosse o sistema político. Contou que por várias ocasiões censurado, inclusive, chamado para depor pelas charges que fez sobre a violência nas ações da polícia.  

Entre 2013 a 2014 foi eleito o terceiro maior antissemita do mundo pelas ilustrações sobre o  conflito entre Israel e Palestina. Lá fora, em muitos países como Bahrein, Turquia, Egito, não posso mais visitar. “No momento em que colocar os pés  nestes países serei preso por conta das minhas charges”. 

Latuff entende que quando os chargistas são alvo de censura estão cumprindo um papel histórico e dando exemplos a outros artistas que são estimulados a enfrentar o autoritarismo, a censura, a patrulha ideológica. “Fico satisfeito de ver que o esforço não foi em vão e assim como outros chargistas eu também tenho lado, não tem esse negócio niilista. Eu tenho lado: esquerda certamente”. 

Sobre a charges, nas quais se associam nacionalismo e religião as considera perigosas. Se é para fazer uma crítica a manipulação religiosa, está de acordo. Mas fato de atacar a religião alheia é uma agressão pura e simples. “Nós podemos combater o fundamentalismo religioso; já fiz várias charges envolvendo os lideres muçulmanos, envolvendo a política. O cancelamento é patrulha ideológica. É moralismo.  Não é atribuição única e exclusiva da direita, é da da esquerda também.” 

 

“Ser contra o governo é papel da oposição. Ser contra o poder é o papel do anarquista. O papel do cartunista é levantar o tapete onde todo mundo acaba escondendo seus podres”.

“Charge significa ataque. O papel do chargista é atacar o opressor”.

“Quando as coisas chegam no ponto que estão chegando no Brasil,  elas não são fruto de um grande momento de radicalização. Elas são fruto de uma história, de uma sequência de pequenos gestos, pequenas acomodações, pequenos consentimentos, pequenas audácias e quando a gente vê estão botando fogo no país. Não foi gesto radical repentino”. 

“Hay gobierno soy contra. Mas não sou contra no automático. Existem diferenças. A gente não faz por fazer, tem um motivo e se baseia num fato”.

“As esquerdas nem com o fascismo se levantando, nem com fascismo sendo um  elefante amarelo com bolinha rosa, conseguem se unir. Gente, quando o fascismo está se levantando é preciso ter uma união mínima. Isso é broxante pra mim”.

Humor é resistência foi sétimo encontro dos Estados Gerais da Cultura. Um movimento que atua de forma antagônica em prol da arte e da cultura. No lugar de Forças Armadas cria-se Forças Amadas. Para Escola Superior de Guerra o movimento criou a Escola Superior da Paz. No lugar da Doutrina de Segurança Nacional foi criada a Doutrina de Segurança Emocional.

 

23 de setembro de 2020

Humor levado a sério

Engana-se quem pensa que humor não deve ser levado a sério. Latuff, Aroeira e Laerte mostraram muito bem que o tom é de seriedade quando o […]