João Cézar de Castro Rocha apresenta essa conclusão diante dos fatos atuais. A guerra cultural para ele, é uma poderosa máquina de produção de narrativas que divide um povo e dissemina ódio, sobretudo em ano eleitoral e não se combate com argumentos.

E mais ainda, a guerra cultural em pleno século XXI se utiliza das características negativas do universo digital com maestria tal, que produz engajamento, cuja intensidade é tão grande “que ainda não sabemos como devemos reagir. Mas não existe problema sem solução. Num encontro entre os integrantes dos Estados Gerais da Cultura – Como furar a bolha e sair do sair do quadrado – este brilhante escritor e professor, doutor em Literatura, faz uma análise sobre o avanço da extrema-direita no mundo ocidental e recomenda que numa guerra cultural não se deve usar argumentos e sim, o afeto e o amor. 

Mas espera aí! Não entenda como um movimento hippie dos anos 70.

Quando João Cézar fala de guerra cultural, ele trata da palavra cultura de forma abrangente – modo de vida de uma sociedade – quando lida com a palavra amor e afeto, é no sentido intenso de ideologia e da crença por um mundo melhor. Ele se refere a narrativas que são criadas com base em notícias falsas e teorias conspiratórias.

“Narrativas polarizadoras, cuja finalidade é gerar inimigos em série, cuja criação permite que a base, que as massas digitais permaneçam em excitação permanente, em mobilização 24 horas por dia, sete dias por semana. A capacidade de mobilização política da extrema-direita no cotidiano, é um dado que nós ainda não consideramos com a seriedade necessária. 

O afeto que nos interessa é a junção do argumento, projeto de nação, com afeto. Amor profundo ao país que nunca tivemos, mas de uma nação que pode vir a ser. Nós precisamos, creio, para combater esta nefasta vitória transnacional da extrema-direita, precisamos sem nenhum constrangimento, voltar a pensar na política, numa junção dupla e necessária. Política que se reduz o afeto é fascismo, que se reduz o argumento é tecnicidade neoliberal… Nós precisamos resgatar uma política que seja, ao mesmo tempo argumento, projeto e afeto, amor ao outro, amor ao mundo, amor a um país que se pode vir a ter.

 

Fragmento da obra de Escher que neste contexto quer significar ressonâncias......

João Cézar de Castro Rocha é professor titular de Literatura Comparada da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). É Doutor em Letras pela UERJ (1997) e em Literatura Comparada pela Stanford University (2002), pesquisador 1D do CNPq e foi Presidente da Associação Brasileira de Literatura Comparada (ABRALIC, 2016-2017). Seu trabalho foi traduzido para o inglês, mandarim, espanhol francês, italiano e alemão. Autor de 13 livros, entre os quais Guerra Cultural e retórica do ódioCrônicas de um Brasil póspolítico (Editora Caminhos, 2020).

“Eu reli o terceiro capítulo da Pedagogia do Oprimido. Eu confesso que é uma dimensão da Pedagogia do Oprimido que não me dei conta nas minhas leituras iniciais. A dimensão é a seguinte, diz o Paulo Freire:

 “Sendo o fundamento do diálogo, o amor é também diálogo. Se não amo o mundo, se não amo a vida, se não amo os homens, não me é possível o diálogo.” 

A Pedagogia do Oprimido possui uma dimensão do afeto, uma dimensão afetiva que me tinha escapado nas primeiras leituras, reconheço constrangido. Creio que um ponto muito importante que temos para encerrar é que nós sejamos capazes de compreender que a narrativa da guerra cultural nada tem a ver com o argumento. Ela tem a ver com produção de afeto. Mas a produção do afeto que deseja a guerra cultural da extrema-direita é um ódio, é o ressentimento”. trechos da fala de João Cézar no encontro do EGC.

“O que que é o microempreendedor ideológico: todos eles possuem um canal sempre com uma linguagem cada vez mais radicalizada e colonizadora para atrair e fidelizar sua audiência, todos tem uma livraria no seu canal que tanto é uma forma de monetizar, mas também de lavar dinheiro. As livrarias dos canais dos YouTubers de extrema direita no Brasil são uma forma ativa de lavagem de dinheiro e de recebimento de recursos ilícitos. Todos oferecem cursos. É literalmente é uma forma de monetizar atividade política a fim de despolitizar a própria polis”

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