Ophelia (1851-1852 - John Everett Millais)

Tarefas pendentes para ser feliz

O sentido da vida é que a vida acaba. Faz muito tempo eu escutei essa frase por ai. Nunca melhor dito. Nunca melhor plasmado. Mas a verdade é que mesmo sabendo disso, evitamos esse tema como podemos. Passamos os anos pensando em quando realmente vamos ser felizes e quando vamos sentirmos completos. Mas poucas vezes pensamos no que devemos fazer para que isso aconteça.

Ora, quando pensamos nisso?

Quando fazemos aniversário ou quando vamos a um enterro. Essa semana curiosamente tive três em um: dois enterros e um aniversário de um amigo que começa a se dar conta que a vida passa muito rápido.

Difícil é tocar no assunto na correria do dia a dia. Difícil é fazer com que as pessoas realmente se deem conta que a vida passa… e os que sabem disso também sabem que passa rápido demais.

Me lembro uma vez de estar num bar conversando com um colega que tinha mais ou menos uns quarenta e poucos anos. Ora seu discurso… naquela sexta feira noite, na mesa de um bar, tomando uma cerveja, ele olhava nos meus olhos  e dizia… Dizia que no dia que ele pudesse se aposentar, quando esse dia chegasse ele não ia protelar nenhum dia mais a sua aposentadoria. Que queria parar de trabalhar naquele exato momento e ponto.

Esse fim de semana, em que ele me falou isso… me lembro que me senti meio mal. Por ele, pelos outros, pela vida em si. Quão injusto é a vida… ou não. Mas deixar que teus anos de vida vitais passem pensando que você quer que chegue a sua aposentadoria é muito triste. Esse momento foi tão melancólico para mim que pensava em muitas outras pessoas que estavam na mesma situação. Também pensava nos meus lindos 32 anos e se esse pessimismo não ia bater um dia na minha porta.

Como dizia Clovis de Barros Filho: “Vitória dos tristes, que querem que a vida acabe rápido! E ela vai acabar”.

A vida não é curta quando ela é bem vivida. O grande problema é que não sabemos o que é viver uma vida plena. Nem eu, nem você, nem ninguém. Tem alguns que dizem que tem o algoritmo da felicidade. Eu sinceramente não acredito nele. Eu acredito que a receita é diferente para todos… mas a única verdade, a única certeza que temos, é que a vida vai acabar para todos.

Nessa semana, com aquele meu amigo aniversariante, eu lhe coloquei um desafio. O mesmo que eu coloco para você, leitor das minhas divagações: Faça uma lista das coisas que você quer fazer antes de morrer. Faça uma lista de prioridades, de coisas que você faz hoje em dia e quer continuar fazendo, coisas que você quer fazer no futuro… coisas do dia a dia que você gosta e gostaria de fazer mais.

Pegue essa lista; coloque ponto por ponto como se fosse uma lista de tarefas. E pregue ela na geladeira. Ou no espelho do banheiro. No lugar que você passa todos os dias e sempre tem que olhar. Pegue essa lista e faça dela uma lista de tarefas pendentes.

Vamos chamá-la: TAREFAS PENDENTES PARA SER FELIZ… Porque é isso que queremos, não? Ser felizes… a vida plena é algo que temos que buscar diariamente. Não no futuro, não no passado. Só somos verdadeiramente felizes quando estamos vivendo o presente. Não quando pensamos o que foi, ou o que será, nem muito menos quando pensamos naquilo que podia ter sido.

Viver o presente é um trabalho de aceitação: aceitar quem você é, as escolhas que você tomou, no momento que você tomou, com as informações e conhecimentos que você tinha e pensar em quem você quer ser. A vida não dá margem para arrependimentos. E o futuro se constrói aqui e agora.

Para ser a pessoa que eu quero eu devo…

A lista de coisas a fazer antes de morrer não é uma lista de planos futuros. Senão uma semente de motivação para o presente. Construindo esses planos no hoje, você poderá chegar até ai. E para que isso ocorra, você deve pensar no que fazer para isso.

Quando penso nessa lista, penso numa série de coisas pequenas, não grandes… mas que me fazem feliz. Pintar e lixar moveis, comida com os amigos, café no fim da tarde, ver o nascer e o pôr do sol quantas vezes forem possíveis… estar em casa lendo vendo a chuva cair. Também penso nesses momentos em famílias em que todos rimos muito… ou numa tarde na praia ou na piscina, esse momento em que escrevo esse texto.

Sobre grandes coisas ou acontecimentos, pouco penso… penso muito em viajar e tenho listas de lugares que quero ir. Mas só o fato de tomar um chocolate quente no fim da tarde ou de estar estirada na grama com um bom livro, tomar um vinho, tudo isso já são motivos para que eu creia que o dia valeu a pena.

Se posso maximizar estes dias, por que não? Saber que a vida acaba é o primeiro passo para enfrentar os teus medos, desejos e inseguranças… Enfrentando-lhes você poderá fazer com que tudo isso se transforme em uma “potência de agir”… uma potência forte que lhe impulse a mudar e fazer de tudo para ser quem você realmente quer, antes que seja tarde demais.

Vila Adriano

Pequena Tivoli é gigante em memória histórica

Poucos que visitam Roma sabem que bem pertinho da capital romana está localizada Tivoli. Uma pequena comunidade em tamanho, com um pouco mais de 40 mil habitantes, porém gigante na memória histórica.

Chegar em Tivoli é ter a oportunidade de se transportar aos tempos do Império Romano, ao visitar Villa Adriana, conhecer Vila D’Este e suas fontes, um testemunho da opulência das famílias papais da Idade Média.

A cidade também tem bons restaurantes e lanchonetes que oferecem sempre o que há de melhor da cozinha italiana. L’Angolino di Mirko é um desses locais para você, que aprecia ‘una buona pasta fatta a mano’. 

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Pela distância de 30 quilômetros de Roma é possível sair cedo e voltar para pernoitar na capital italiana. Via metrô direção Rebibbia.

Villa Adriana

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O imperador romano Adriano era de origem espanhola e foi criado por Traiano. Assumiu o império aos 40 anos. Foi um mito em seu tempo. Era alto, elegante e reunia diversas qualidades, de acordo com a descrição das biografias feitas em italiano. “Era hábil, culto, autoritário e ambicioso”.

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Ninfeo Stadio. Lado norte

A Villa Adriana de Tivoli começou a ser construída a partir do século 117 d.C pelo imperador Adriano

reconstrução feita do Ninfeo Stadio
reconstrução feita do Ninfeo Stadio

como sua residência imperial, longe de Roma. É uma das mais importantes e complexa Villa que permaneceu para contar a história da antiguidade romana. É tão grande ou mais que Pompéia.

É um complexo que alcança uma superfície de cerca de 120 hectares e se configura como um imenso parque-jardim, disseminado entre os monumentos e edifícios. A sua enorme extensão, a quantidade dos edifícios, a originalidade das formas arquitetônicas fazem da Villa Adriana um monumento único na história da arquitetura antiga.

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Il Serapeo. Um templo.
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O templo reconstruído. Projetado como seria na antiguidade.

Lá tudo é grandioso e acuradamente calculado. Como residência permanente de Adriano, era destinada a função oficial, às festas, banquetes, espetáculos para os hóspedes mais importantes, mas, acima de tudo, ao retiro e à quietude e tranquilidade do imperador, depois que retornava de suas conquistas. Fonte: Turismo, Villa Adriana Passato e Presente, Chiara Morselli.

Para chegar a Villa Adriana é necessário pegar um Pullman, como dizem os italianos, num ponto específico de Tivoli.

Praça Central de Tivoli
Praça Central de Tivoli

Águas Termais

Tivoli chama mais atenção dos próprios italianos que a frequentam muito mais que turistas pelas suas águas termais. São águas sulfurosas e as famosas ‘acque albule’ muito apreciada pelos imperadores romanos e potentes para o tratamento de infecções e inflamações.

Segundo dados históricos, os primeiros registros sobre águas albule são mencionados em Eneida de Virgílio, cujo Plínio, o Velho, conta que em seu tempo os soldados feridos em batalha eram transportados aos banhos de Tivoli.

Com o declínio do império, caíram em desuso as termas, que descobertas no Renascimento. O primeiro estabelecimento termal moderno para banhos em Tivoli foi construído em 1880.  Hoje existe um centro termal que pode ser considerado entre os melhores implantados pelos europeus.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Indenização milionária pela destruição de 5 Pointz fortalece a arte

Um pequeno consolo pela destruição de 5 Pointz, a ‘Meca do Grafite’, em Nova York, é a decisão judicial que obriga um empresário do setor imobiliário pagar 6,7 milhões de dólares a 21 artistas.  Acima de toda a questão econômica, fortalece a arte urbana ( grafit, street art) no mundo.  Se a ‘moda pega’  João Dória, em São Paulo, que se cuide!

A decisão do juiz americano Frederic Block, foi divulgada há poucos dias pelos principais jornais de Nova York, nydailynews, e repercutiu internacionalmente.

Há alguns anos atrás, quem pegava a linha 7 do metrô de Nova York, em direção Queens, depois de atravessar East River e perto PS1, poderia ver o velho edifício completamente grafitado, colorido em sua imponência criativa.

5 Pointz era um dos poucos remanescentes das gloriosas décadas em que surgiram os grafites,  70 e 80.

Progresso avança

Como nos Estados Unidos o progresso avança sempre, assim como no Brasil e em diversos países ditos ‘civilizados’, não foi possível salvar a obra de arte. Em 2013, o empreendedor Gerald Wolfkoff, encontrou no local a inspiração ideal para fazer um espaço residencial de luxo e num impulso, antes de receber as licenças para derrubar o edifício, pintou de branco alguns grafites. Sua atitude foi em resposta aos movimentos contra a realização da obra.

Um grande erro.

“Se não fosse pela insolência de Wolkoff, esses danos não teriam sido avaliados”, escreveu o juiz na sentença. “Se ele não destruísse 5 Pointz até receber suas licenças em 10 meses depois, o Tribunal não teria descoberto que ele havia agido deliberadamente”.

Por essa ânsia de ganhar, se atropelando nas decisões, Wolfkoff pagará 6,7 milhões de dólares. Na sentença ele descreve que: “A vergonha deste episódio é que, como 5 Pointz era uma atração turística acima de tudo, o público estaria em peso para despedir-se da obra durante esses 10 meses, olhando para os trabalhos pela última vez”, descreve e ainda acrescenta, “teria sido um maravilhoso tributo aos artistas”.

Dignidade

O juiz também observou que os artistas, ao contrário de Wolkoff, comportaram-se com dignidade, enquanto os advogados do empreendedor alegaram sem sucesso que os artistas sabiam há anos que sua obra seria demolida.

Os artistas processaram o empreendimento com base no Visual Artists Rights Act, uma lei de 1990 que protege obras de arte de “estatura reconhecida”.

Um pouco da história da street art

O que chamamos hoje de street art, grafite ou arte urbana, começou no final dos anos 60 na Filadéfia, Pensilvânia, com Cornbread e Cool Earl. Mas foi TAKI 183 quem ganhou fama. A marca foi criada por um adolescente grego que vivia em Nova York e 183 é o número da rua onde ele morava.

Seu nome na realidade era Demetrius, que em 1971 deu entrevista ao The New York Times por ter escrito sua marca em quase todos os lugares durante horas de trabalho como um mensageiro na cidade. O movimento começou a aparecer em edifícios, caixas de correio, telefones públicos, túneis subterrâneos, ônibus e metrôs.Fonte:speerstra

A sentença do juiz americano é um antídoto contra a ação avassaladora da especulação imobiliária no mundo capitalista, que em nome do progresso, do desenvolvimento, destrói monumentos e a memória de um povo. Em Curitiba, no Paraná, um exemplo recente foi a demolição da antiga fábrica de mate no centro da cidade, para dar lugar a um templo religioso, com uma arquitetura de mau-gosto.

 

 

Os Amantes, Henri Matisse, 1928. Nova York. Museu de Arte Moderna

Casais desestruturados

Há quem lembre do meu texto sobre os solteiros desestruturados. Há quem lembre das minhas divagações sobre esta época, esta mudança de paradigma que estamos vivendo. Pois outro dia em casa estava divagando no telefone com a mesma pessoa que me trouxe o conceito “Solteiros desestruturados”.

E não sei se porque é Dia dos namorados aqui na Europa ou Carnaval no Brasil, a verdade é que comecei a pensar sobre o seguinte nível dos tão famosos solteiros desestruturados.

São os casais desestruturados. Isso mesmo. O solteiro deixou de ser solteiro e encontrou uma pessoa… que o complete, que dívida as mesmas inquietudes que ele. Quando um solteiro desestruturado encontra a outro solteiro desestruturado o mundo treme.

Regras do mundo

Treme porque sabe que a relação deles, longe de ser o que os outros esperam, vai ser plasmada por esse conceito que eles levam tão arraigados dentro de si: a liberdade. Os casais desestruturados não são aqueles que fogem de todas as convenções possíveis, mas sim aqueles que sabem que estas convenções podem ser quebradas quando eles quiserem. Porque eles, que foram solteiros desestruturados, sabem melhor que ninguém que as regras desse mundo já não se aplicam na sua forma de vida.

Os casais desestruturados podem casar, ter filhos, assim como podem decidir o contrário. Podem ter uma relação cada um na sua casa, podem ir a viver juntos sem ter que casar e podem um milhão de coisas mais que antigamente vinha preestabelecido como regras do jogo.

Dogma dos relacionamentos

Quando converso com meus amigos que têm relações atípicas, muitos deles sempre me dizem o mesmo; que essa rota pré-programada que as pessoas te dão, e assumem como um dogma dos relacionamentos, limita muito as relações.

E hoje, depois de viver essa liberdade, essa possibilidade de fazer as coisas como a gente quer, assusta muito entrar numa relação e esperar que tudo aquilo que você construiu sozinho, tudo aquilo que você quer ser, pode ser quebrado porque agora as regras do jogo são outras…

O que fazer nesse caso?

Eu digo que não… e como eu, muitas pessoas que sentem o mesmo dizem que não. Queremos sim ter uma pessoa do nosso lado, mas que entenda os nossos desejos e inquietudes, e que nos permita ser tão plenos com eles que quando éramos sem eles.

Queremos ter nossa liberdade e respeitar a liberdade do outro… queremos não aceitar esse contrato preestabelecido que a sociedade nos impões e limita… não para sermos rebeldes ou romper o ‘status quo’; senão para ter a possibilidade de ser quem realmente somos.

Casais desestruturados

Somos casais desestruturados… e não queremos que nada nem ninguém nos impeça de ser felizes. Podemos ceder, e ser flexíveis, mas não queremos fazer sacrifícios… porque sabemos que os sacrifícios passam fatura a longo prazo.

Se você, solteiro desestruturado, encontra uma pessoa para seguir esse caminho consigo, por que não abrir os horizontes e falar abertamente sobre o que quereis: trabalho, família, casa, sexo, relações abertas, fechadas, sentimentos… o que for.

Ninguém aqui está obrigado a aceitar aquilo que não o faz feliz. E o futuro de um casal está justamente nessa flexibilidade e na tentativa de simpatizar sobre aquilo que espera o outro.

O diálogo é o primeiro passo a dar quando um quer realmente que o outro o compreenda. Não se sinta obrigado a fazer o que os outros querem que façam, e permitam que a vossa relação seja única e singular como pessoas que vocês são: únicos e singulares.

De solteiros desestruturados a casais desestruturados.

Façamos a nossa escolha. O que queremos? Flexibilidade, relações abertas, fechadas, muito sexo, pouco, filhos, família, casa própria, aluguel… viajar o mundo inteiro… ter a possibilidade de aceitar uma proposta de trabalho na conchinchina… Hoje mais do que nunca temos a possibilidade de alçar a voz e falar sobre isso.

Olhar um no olho do outro e dizer sinceramente: eu gosto de você mas isso também é prioritário na minha vida, o que você acha?

Escravidão

O tempo nos permitiu abolir a escravidão, a dar direitos as mulheres, a aceitar os homossexuais… por que não agora, aceitar o diferente, e assumir que a tua maior alegria é ver o outro, aquele que você ama, progredir e ser feliz da forma que ele sempre desejou. Porque não fazer com ele entenda o que você quer, o que te motiva e o que te faz feliz.

De repente, não queremos casar, não queremos ter filhos, mas queremos sim uma pessoa do nosso lado. De repente queremos ter filho e ensiná-los de forma diferente, educá-los com outras prioridades e outros matizes. De repente, queremos viajar sozinhos, queremos ter nosso tempo para fazer esporte, interagir, ler, escrever ou o que for… não queremos ir de férias todos os anos à praia, comprar casa própria, ou comer todos os domingos na casa dos pais ou dos sogros… não queremos estar atados e ter que viver a vida inteira num só lugar.

Ajamos com boa fé, sejamos sinceros, abramos a porta do diálogo e demos a possibilidade de que um seja realmente quem quer ser: com todos suas qualidades, defeitos, desejos e vontade. Não importa o que for… ter a liberdade de manifestar-se sobre esse desejo, sobre esta inquietude é uma das grandes vantagens do tempo em que vivemos.

Liberdade

Somos casais desestruturados. De solteiros aprendemos que o grande valor da vida é a nossa liberdade. E nessa liberdade que ambos levamos consigo, busquemos comer o mundo e fazer dele um lugar mais tolerante e habitável… e que a nossa felicidade, o nosso sorriso emane em todos os cantinhos do mundo.

Que juntos, aceitemos e respeitemos todos os casais e solteiros, dos mais conservadores aos mais progressistas, e que façamos que eles se sintam em casa… porque somos aquilo que sempre sonhamos ser, porque encontramos uma pessoa para dividir essa vontade, esse desejo da forma mais honesta e livre… sem dogmas, sem rota pré-estabelecida, e principalmente sem medo de falar.

Sejamos solteiros desestruturados, casais desestruturados, ou mesmo famílias desestruturadas… buscando nesse conceito, não o seu lado negativo mais sim o lado mais singular que nos fazem ser como somos. E nessa singularidade, o único desejo de viver uma vida plena e feliz sem receitas de bolo, nem caminhos pré-definidos. A vida começa agora e nós indicamos a direção que queremos tomar.

Somos casais desestruturados e a vida é hoje e agora.

*Dia de San Valentino na Europa comemora-se o Dia dos Namorados. 14 de fevereiro.