‘Arte é arma! Ao mesmo tempo antídoto contra a violência’. Antonio Quinet

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Foto via Facebook de Antonio Quinet. Todos direitos reservados ao autor

A frase acima atinge diretamente o coração de quem ama e se conecta com a arte para viver.

 A arte é arma e antídoto sim e temida por regimes autoritários. Mas quem falou sobre a força transformadora da arte foi  Antonio Quinet, professor, dramaturgo, escritor e considerado entre os mais importantes psicanalistas do Brasil.  

Aliás, não só falou mas encantou seu público, inclusive essa jornalista que escreve aqui,  num encontro realizado pelo Estados Gerais da Cultura,( clique aqui ) no início da pandemia, em setembro de 2020, que jamais perderá a atualidade. Vale a pena ver de novo e recomendo que assistam e revejam sempre pela incrível aula sobre o porquê do ódio que predomina os tempos atuais. 

“O ódio é uma expressão daquilo que todos nós temos, que é a pulsão de morte.”

Até ele chegar na importância da arte e da cultura como peças chaves na transformação do homem, Quinet, com um bom professor, foi fundo e nos mostrou, em  primeiro lugar,  como Freud criou a teoria ‘pulsão de morte’ e como a história e as guerras fizeram o grande  mestre austríaco reconhecer que este desejo que vai em  direção à morte e auto destruição está dentro de todos nós.

Estamos vivendo um tempo de incitação ao ódio e a violência e como vocês sabem não começou hoje, ele é velho como o mundo. Quinet.

Mas nosso professor chama a atenção que nos tempos atuais não estamos vivendo uma guerra oficialmente, a diferença está no discurso que legitima o ódio, a violência dirigida ao outro. 

O mal é autorizado, legalizado e banalizado

No entanto, apesar de mostrar a realidade Quinet nos estimula a resistir e nos mantermos na nossa utopia. 

Uma política de destruição que que está sendo devastadora. Devastadora do ser humano, devastadora da nossa cultura e devastadora do nosso meio ambiente. Ou seja,  tá acabando com a terra, tá acabando com a humanidade. E nós realmente temos que nos unir e a cultura é uma arma fortíssima contra isso.

É por isso que estou repetindo e publicando de novo a fala de Antonio Quinet. Para lembrar que precisamos nos unir, que pela arte e a cultura podemos mudar o mundo. 

Aí me pergunto, como vou reduzir 40 minutos de uma fala brilhante de um dos mais importante entre os psicanalistas brasileiros em apenas poucos minutos, que é a proposta atual do PanHoramarte?

Simples vou citar as frases de impacto dele e incitá-lo  você leitor  à arte. Prestem atenção em alguns pontos

Sobre a Pulsão de Morte

Na verdade, foi a Guerra e a continuação de tudo que ele via na análise, nos pacientes neuróticos, que existe alguma coisa do próprio sujeito que resiste a ser curado a ser curado dos seus sintomas. Então, ele começou perceber que nós não somos apenas regidos pelo princípio do prazer, ou seja que a gente tem o prazer, mas se a gente tem um pouco de dor, a gente recua um pouco, negocia, tenta fazer um pouco de prazer. Mas tem algo dentro dos homens e das mulheres que é uma tendência destrutiva e que ele vai chamar de pulsão de morte.

Sobre a guerra

Porque a guerra desorientou todo mundo e ninguém sabia explicar o porquê da guerra, para além das conquistas territoriais e Einstein, então, escreve para Freud um texto que se chama: o Dr Freud porque a guerra? Freud responde: a guerra é uma orgia de gozo. 

 Sobre Paixões

Essas manifestações da pulsão de morte na civilização elas tendem a acabar com a civilização, a destruir a civilização. Elas se transformam em paixões.(…)Lacan disse que existem três paixões do homem, o amor, o ódio e a ignorância. Sim, é surpreendente colocar a ignorância como uma paixão.

Sobre Ignorodio

O anti-intelectualismo hoje virou uma grande paixão e o ataque, e o ódio junto. Eu diria que o amor está para Eros, assim como o ódio e a ignorância está para Tânato, a pulsão de morte. Por isso que eu cunhei a expressão o ignorodio, que são as pessoas que tem ódio do saber do outro, tem ódio de quem faz conhecimento e que negam e são os negacionistas. Os negacionistas que essa pandemia – realmente o catastrófica – que é um desastre, que não é apenas uma gripezinha. São os que tentam negar a realidade e negar o conhecimento e tem ódio de quem faz conhecimento e quem faz ciência. Então nós vemos que o ignoródio é uma manifestação na civilização dessa pulsão de morte. Terrível e regenciada. Nós sabemos que sendo regenciada com propósitos.

 

Sobre a arte

O que é arte? Qual é o campo propriamente da arte. Nós temos isso que é verdade, que Freud fala, que você coloca sua energia libidinal e erótica para criar. Mas tem algo que você realmente cria e não apenas copia, o que você faz. Tem que criar algo novo. O novo é o que é próprio da criação. O novo é criado do nada. ‘Ex-nihilo’ em latim. Então, é a partir de uma operação de esvaziamento daquilo que há, daquilo que é, que algo pode brotar dali, que não seria apenas as flores do mal, mas as flores da arte. As flores da arte nascem no campo devastado da pulsão de morte.

Sobre o Teatro

Freud o que diz, justamente a partir de Édipo – o rei, de Sófocles, aquilo o que o sujeito vê em cena é o seu inconsciente. Essas coisas terríveis que vemos fazem parte do nosso inconsciente. A arte é a possibilidade de transformar os terrores e horror cotidiano em arte. Não só como forma de sublimação de pulsão de morte, como também através da beleza estética que aquilo proporciona e do afeto que aquilo proporciona, tem algo de uma transmissão que a arte proporciona, que os gregos sabiam, um efeito didático, educativo, efeito moral, de uma transmissão, de uma lei.

Sobre a dor surge a arte

Não é à toa que nos momentos mais terríveis, de guerra, de ditadura, surge movimentos de criação de artistas, incríveis, derivação do medo, do terror, que brotam as flores da arte ao lado de todas as flores do mal, nesta floresta de devastação. Acontece com a pintura, o canto, algo que nos toca de real, do afeto. Só aquilo tem um poder, que não é só divertimento, vai muito mais do que isso.

A Cena 

O teatro tem a particularidade, ao ser colocado em cena determinados conflitos, despertarem o espectador de uma maneira tal, que na rua está vendo a mendiga com o neném deitado no seu colo, que pode estar vivo ou morto, mas ele não é tão tocado porque é banalizado e de repente vai ao teatro e vê uma cena deste tipo e ele chora e é capaz de sair do teatro e ver a mesma cena e já a vê de outra maneira. Porque a arte tem essa propriedade de real, de tocar nos afetos e ao mesmo tempo transmitir alguma coisa intelectualmente.

 

 

O poder da arte

Você muitas vezes pode ter passado em situações assim de fato ou até subjetivo. Mas além do terror, tem o entusiasmo. Esse afeto que é o gozo artístico, é um gozo dessa ordem. Não é sexual. Não é sexualizado. O gozo artístico que é o entusiasmo, no aspecto Dionisíaco que faz a arte. A arte tem o texto, o desenvolvimento que é a transmissão da ordem do saber e tem o dionisíaco que é o entusiasmo, que proporciona e que uma coisa aliada a outra tem efeito muito poderoso. O poder da arte de ser um derivado da pulsão de morte é também um antídoto da pulsão de morte. Em termos da arte sai mais fortalecido se está aberto para aquilo pode ser transformador e que é muito importante. Eu realmente acredito no poder transformador da arte!


Também acredito nesse poder Antonio Quinet. Por isso, retorno com sua fala e repito o que disse, não foi e não será uma pandemia que irá confinar nossas ideias.

Mãos à obra!

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Mari Weigert
Mari Weigert
Mari Weigert é jornalista com especialização em História da Arte pela Escola de Música e Belas Artes do Paraná. Atuou na área de cultura, como jornalista oficial do Governo do Paraná. Durante um ano participou das aulas de Crítica de arte de Maria Letizia Proietti e Orieta Rossi, na Sapienza Università, em Roma como aluna ouvinte. Acredita que as palavras bem escritas educam e seduzem pelos seus significados que se revelam na poética da vida. *IN ITALIANO (Mari Weigert è giornalista e perfezionata in Storia dell' Arte per la Embap, del Brasile. Durante un anno è stato alunna di Critica d'Arte, alla Sapienza Università di Roma. Crede nelle parole ben scritte che seducono per le sue significate in cui rivelano la poetica della vita.)

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