Biblioteca musical – quando um país sabe o valor da cultura

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foto by Jaqueline D'Hipolito Dartora

Já imaginou uma biblioteca voltada somente para a música e os estudos musicais? Já imaginou um lugar onde as pessoas que não tivessem recurso pudessem aprender um instrumento musical, o solfejo, e emprestar partituras, biografias de músicos. Não é um sonho!

Esse lugar existe… está no centro Madrid e é dele que eu quero falar.

Epilogo

Já faz um tempo que venho pensando em estudar piano. De todos os instrumentos musicais, o piano quem sabe é o que eu mais gosto e aprecio. Deve ser porque na minha época de bailarina todas as aulas eram acompanhadas de um professor de piano. Que delícia!

Não faz muito tempo conheci um professor de piano, e começamos a falar sobre a possibilidade de eu aprender esse instrumento. O caso é que não tenho piano, nem dinheiro, nem lugar para colocar um. Em 40 metros quadrados fica muito difícil encontrar um lugar onde caberia um piano.

Quando conversamos, me disse que quem sabe poderia começar as aulas e treinar ou na sua escola ou na Biblioteca Musical. Fiquei boquiaberta. Biblioteca musical?! Como assim?! E eis que em Madrid existe uma tal “Biblioteca Musical”. E eu que sou uma rata de biblioteca, que ando entre uma e outra passando as minhas tardes e emprestando livros, nunca soube desse fato.

Que curiosidade mais grande se abriu diante de mim. Ainda mais quando descobri que a biblioteca musical ficava do lado do cinema onde sempre frequento. Um fato como esse não podia deixá-lo de lado. Comecei a investigar tudo sobre a Biblioteca… onde ficava, horários, o que oferecia e cada vez mais o meu espanto aumentava. Como a biblioteca não abria nos sábados e domingos, programei a minha visita uma sexta feira de tarde, depois do trabalho, para ver como era e como funcionava.

 

História

 

A “Biblioteca Circulante Musical”, seu nome original, nasceu como uma instituição paralela a “Biblioteca Circulante Literária”. Esta foi criadas em 1914 pelo diretor de Investigações históricas Ricardo Fuente Ascênsio como forma de promover a formação de novas instituições culturais que colocam os livros no alcance da cidadania.

Nesse contexto de renovação cultural, aparece Víctor Espinós, musicólogo e musicógrafo espanhol,  que começa a trabalhar na Biblioteca Circulante Literária em 1918 e logo em seguida, somente um ano depois de estar alí, apresenta seu projeto para a criação da Biblioteca Circulante Musical. Seu objetivo, como relata a própria biblioteca, era claro: uma biblioteca musical colocaria nas mãos das pessoas com escassos recursos econômicos páginas de papel pautado que fariam esquecer a rudeza de uma vida dura.

Essa biblioteca contaria com duas seções oficiais: uma com intuito didático, dedicado ao aprendizado e aos métodos de ensino; e outra, com o empréstimo de obras para os que já tinham conhecimentos suficiente para executar um instrumento.

Para isso contou com a doação e a generosidade de muitos amigos, músicos, filantropos que ajudaram a compor o acervo, assim como ajudas Estatais para a sua manutenção. Eis que em 1919, a prefeitura da luz verde para a concepção com a assinatura do Decreto de 27 de outubro.

 

 

 

Empréstimo de Instrumentos

Quem seja que leia esse intertítulo deve estar alucinando. Mas não é brincadeira não. A Biblioteca Musical dispõe de um serviço de empréstimo de instrumentos musicais, um serviço pioneiro na Europa e que existe desde 1932.

O serviço de empréstimo de instrumentos musicais parece que nasceu no mesmo momento que tiveram a ideia da biblioteca musical, porém foi procrastinado por várias circunstancias, sendo efetivado em 1932… completamente gratuito ao público, com vigência de um ano, sendo que a cada oito dias o aluno deve apresentar o instrumento para uma inspeção do mesmo.

Sala de ensaio

Como eu disse, isso não é uma biblioteca corrente. Nela se dispõe de salas reservadas para os que estão aprendendo algum instrumento musical ensaiem. Parece loucura, mas se buscarmos no nosso interior, ou mesmo etimológicamente, a função de uma biblioteca, chegamos à conclusão que a parte de ter um serviço de empréstimos de livros, sua outra função é dispor de um espaço tranquilo para estudar, sem interrupções.

Eis que estudar música, sem dúvida requere de um lugar onde emana silencio, e onde um pode manter a sua concentração sem interrupções. Por isso existem as chamadas “Cabinas de ensayo”.

O serviço foi criado em 1933 e é um dos mais singulares da biblioteca. Quando Victor Espinós organiza o empréstimo de instrumentos, também pensa em criar um espaço para poder ensaiar dentro da biblioteca. Nos primeiros anos dispunha de quatro pianos em que os estudantes podiam praticar uma hora e meia em dias alternados na semana.

Nos anos 60 se cria umas mini salas individuais em que se podem reservar horário e dispor de uma hora, ou uma hora e meia para estudar. O serviço se inaugura graças a diversas doações e nos anos 90 se instalam as 10 primeiras salas e os primeiros pianos adquiridos mediante a compra, oferecendo aparte das salas para estudar, outros tipos de instrumentos que eram emprestados na própria biblioteca para que pudessem se utilizados ali. E para completar existe uma sala de ensaio para grupos de câmara que querem ensaiar em conjunto.

100 anos da Biblioteca Musical

Esse acho que é um dos fatos que mais me surpreendem. Essa biblioteca acaba de completar 100 anos no ano de 2019, o que quer dizer que ela foi fundada numa época na qual em muitos países e incluso na Europa a educação não era um tema prioritário. Saber que Espanha se posicionava na elite da cultura promovendo tal ação me enche de orgulho e satisfação.

Estamos falando de uma época entre guerras, marcada pela miséria, mas também de vanguarda histórica e movimentos. Se nos lembramos de todas as correntes artísticos literárias que emergeram nessa época, somadas ao sufrágio feminista, podemos chegar à conclusão que nos países mais preocupados com o progresso social, a educação começa a ganhar relevância.

E no meio da miséria ocasionada pela I guerra Mundial, podemos ver uma ponta de esperança quando ideias como esta, a Biblioteca Musical, começa a ganhar relevo e proporciona meios educacionais para aqueles que nunca tiveram oportunidade de ver o que era um instrumento musical.

Espanha não participou da I Guerra Mundial mas lembremos que em 1933, justamente quando essa biblioteca começava a ganhar reputação,  se desencadeava a guerra civil, que acaba por levar os pobres a miséria extrema.

É um tanto paradoxo, mas o certo foi que durante todo esse período a Biblioteca resistiu, e nem um governo nem outro derrubou as paredes que outrora foram construídas. Quem sabe isso seja um sinal de esperança. Quem sabe a sua sobrevivência tenha sida um símbolo de protesto silencioso. Porque todos sabemos que a verdadeira revolução, é aquela que se faz em quatro paredes, com os cotovelos em cima da carteira e um livro aberto.

Um povo instruído leva a pequenos atos de progresso social, e sem a necessidade de destruir o sistema, um povo letrado é capaz de lograr como se diz aqui, passinho a passinho, que verdadeiras mudanças estruturais sejam feitas. Essa é a história da Europa. Ou parte dela. Não vamos negar que muito sangue foi derramado. Mas também é certo e não podemos negar que muita coisa foi construída com base na educação do seu povo. E isso muitas nações que compõe esse continente souberam ver. Sem grandes discursos, sem afã de mudar o mundo ou revolucionar a história, a criação dessa biblioteca é um símbolo lindo sobre os pequenos atos que fazem grande diferença.

 

 

 

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Jaqueline D`Hipolito Dartora
Jaqueline D`Hipolito Dartora
Formada em Jornalismo na Universidade Santiago de Compostela, Jaqueline se identifica como escritora e "vinalogadora". Atualmente dedica-se ao marketing e a comunicação, promovendo eventos que conectam e promovem o diálogo entre o vinho e as artes em geral. Têm também vários projetos paralelos relacionados com as letras e o mundo do vinho. Promove formas mais sustentáveis de vida, sendo uma ativista do uso da bicicleta na cidade e de uma vida mais saudável, lenta e meditada. No seu tempo livre realiza trabalhos voluntários em Vinícolas ecológicas e (WWOOF) y recentemente criou o blog Vinálogos. Colabora com alguns blogs, lojas de vinho, e escreve contos, relatos, ensaios em inglês, português e espanhol.

1 Comment

  1. Mara Silva Lima disse:

    “Podemos dizer que a música é o espírito ou a alma falando em voz alta.”

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