Culto à beleza distorce o significado da adoção

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A polêmica provocada pelo desfile “Adoção na Passarela’ realizado em Cuiabá coloca um tema complexo como a adoção em pauta e escâncara a superficialidade do mundo moderno. Vamos viajar no tempo e trazer para o século XXI o mito grego ‘Narciso”, que se apaixona pela sua própria imagem e isso o leva à morte.

Em tempos de que a passarela é o sonho de toda a ‘menina Barbie’ e a selfie, ou autorretrato, é a foto do momento, promover um desfile de crianças que vivem numa outra realidade afetiva representa que os valores morais são determinados por uma sociedade narcisista. Para saber mais sobre o mito Narciso clique aqui

O desfile em questão, ‘uma ideia de jerico‘ sem dúvida, foi usado para dar visibilidade ao assunto adoção, já sendo o segundo desfile realizado. Mesmo como leiga em assuntos de psicologia, considero a iniciativa um tanto esdrúxula e absurda. Cada vez mais os valores éticos perdem-se nos emaranhados da vaidade e do ideal de beleza.

É uma pena que crianças abandonadas e órfãs foram inseridas nessa escala de valores, exclusivamente direcionada ao significado da beleza física como padrão de escolha. É controverso e perigoso o recurso escolhido para tratar de um tema que o Brasil ainda tem muito a percorrer e corre o risco de um grande retrocesso.

Pobreza

O abandono de crianças  no Brasil é resultado da deseducação e falta de condições básicas de vida. É fato indiscutível.

Entenda-se que o termo educar ao qual me refiro, não é tão somente sair da escola com o diploma na mão. Educar é aquilo que aprendemos também pelo conhecimento não formal. Educare do latim, é instruir e ensinar e tal questão não se resume apenas ter conhecimento do português, matemática, história, e outras disciplinas. É sentido holístico do desenvolvimento da personalidade por meio da música, das artes, da filosofia, do esporte…

Os números que mostram a diminuição do analfabetismo não significam nada enquanto persistir o analfabetismo funcional. Isto é, enquanto um povo, mesmo sabendo ler e escrever, não consegue interpretar, criticar e ter poder de escolha do que é bom para ele. Uma pessoa somente é capaz de pensar e sentir-se parte de uma sociedade evoluída se estiver bem alimentada e com saúde.

A transformação de uma sociedade é um processo a longo prazo e exige um esforço contínuo do setores, governo e sociedade civil.

No Brasil estamos ainda muito distante desse ideal de educação holística. As escolas não têm período de contra turno, horário em que é possível oferecer aulas de teatro, prática de esportes, ensino de artes, música, reforço escolar. Enquanto o ensino público não for integral, haverá crianças na rua convivendo com maus elementos. Enquanto a educação não for prioridade neste país, crescerá cada vez mais o número da marginalidade. Um dos efeitos é a gravidez precoce.  Mesmo com todos os recursos de controle de natalidade, o número de adolescentes grávidas no Brasil é assustador, leia aqui.

Adoção ilegal

Minhas filhas eram ainda pequenas quando as mães brasileiras viviam sob a tensão de ter  filhos roubados para adoção ilegal por europeus, tal era o comércio internacional de crianças.Principalmente as do Sul e que eram claras. Isso na década de 80.

Na Itália, período em que estudei, entre 2009 e 2010, tive a oportunidade de conhecer uma família que tinha adotado um menino e uma menina (já agora crescidos), de um orfanato no Brasil e intermediado por um advogado.Elas custaram ao bolso dos pais adotivos cinco mil euros cada, isso há 19 anos (idade do mais novo).

Fiquei tão paralisada diante do sorriso puro daquela senhora que se sentia a pessoa mais feliz do mundo, que achei injusto perguntar mais sobre como foi feito o processo e quem era o advogado. Muitas campanhas foram feitas para frear essa ilegalidade sem precedentes na história brasileira.

Também no período em que estava em território italiano, certa vez, numa aula que participei em Roma de língua italiana, oferecida para estrangeiros, o tema da lição era adoção feita por europeus, de crianças abandonadas na Ásia e África.

Indignada questionei a atitude dos europeus e perguntei porque eles não usavam de outros meios para solucionar a questão, certamente muito complexa porque envolve interesses políticos, guerra, violência. Minha intervenção não foi bem-vinda. Todos, inclusive alunos, acharam estranho questionar uma atitude tão altruísta.

Adoção legal

Também a minha indignação foi tamanha por  ter ciência de que casais brasileiros enfrentavam fila para conseguirem a adotar uma criança. Sabemos que existe uma série de burocracia dos juizados e varas de infância. Sabemos também que o objetivo é evitar que o menor abandonado ou órfão sofram novamente o trauma da solidão e da falta do amor familiar.

Enquanto bebês e até quatro anos são mais fáceis de serem adotados, as crianças acima desta idade estão ainda em maior número nos abrigos do Brasil. Pelo Cadastro Nacional de Adoção são em torno de 60 por cento o número de crianças acima de quatro anos aptas e aguardando uma família.

Portanto, a ‘Adoção na Passarela’ serve apenas para mostrar o quanto a sociedade brasileira está sem rumo em assuntos tão sérios sobre a afetividade e o abandono.

 “Adoção de uma criança é um encontro de almas”.A frase não é minha e sim de minha filha, mãe de uma linda menina por adoção. Minha neta da alma e do coração. Num encontro de almas, o poder do dinheiro ou atributos físicos são irrelevantes!

 

 

 

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Mari Weigert
Mari Weigert
Mari Weigert é jornalista com especialização em História da Arte pela Escola de Música e Belas Artes do Paraná. Atuou na área de cultura, como jornalista oficial do Governo do Paraná. Durante um ano participou das aulas de Crítica de arte de Maria Letizia Proietti e Orieta Rossi, na Sapienza Università, em Roma como aluna ouvinte. Acredita que as palavras bem escritas educam e seduzem pelos seus significados que se revelam na poética da vida. *IN ITALIANO (Mari Weigert è giornalista e perfezionata in Storia dell' Arte per la Embap, del Brasile. Durante un anno è stato alunna di Critica d'Arte, alla Sapienza Università di Roma. Crede nelle parole ben scritte che seducono per le sue significate in cui rivelano la poetica della vita.)

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