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Chegou finalmente o dia que eu estava esperando há muito tempo: a vindima, em outras palavras, a colheita da uva.
A experiência da colheita na Grange du Bouys foi um ato de amor e trabalho coletivo tendo como cenário inicial o sol nascendo no horizonte.

E posso dizer com toda certeza que não tem coisa melhor para fazer aqui no programa que ajudar a coletar uvas nessa época do ano. Esperava por esse momento desde maio, quando me inscrevi para participar do WWOOF, e elegi setembro porque sabia que a maioria das colheitas aqui na Europa se faziam nesse mês.

21624129_10155006566935829_1473238807_nInfelizmente, este ano tivemos um tempo peculiar e a vindima adiantou-se por algumas semanas. Muitas uvas como a Vermentino, a Grenache e a Cinsault foram colhidas na última semana de agosto quando eu ainda não tinha chegado ao projeto. E quando cheguei na primeira semana de setembro, numa sexta-feira, disseram que só faltava a colheita da Carignan e que pretendiam fazer primeiramente na quarta feira.

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Mais tarde Stephane finalmente nos disse que íamos fazer na sexta-feira, que foi quando conseguiu juntar o maior número de pessoas para ajudar. Stephane e Florence têm amigos por toda a região que lhes ajudam no dia da colheita. É curioso ver que todos estavam aqui as 6:45 da manhã na porta da Adega, prontos para organizar o trabalho.

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Muitos deles também são produtores locais e admiravelmente com idades muito avançadas. Os pais de Sthephane também estavam ajudando na colheita.

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Da gosto de ver gente entre seus 70 e 80 anos com tanta vitalidade. Acho que eles eram os que colhiam as uvas mais rapidamente. Fomos para o parreiral ainda de noite e tivemos a oportunidade de ver o sol nascer no meio do campo.

Nos juntávamos em grupo de duas pessoas e cada um ia fazendo cada lado da parreira. Era incrível como cada raio de sol iluminava as parreiras e as uvas.

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Uma luz diferente dos raios solares provocavam composições mágicas

Era uma dessas composições mágicas fotográficas que juntam todos os elementos necessários para tirar a foto perfeita. Cada raio proporcionava uma luz diferente para cada folha. Cada detalhe, cada momento que eu estava vivendo tentava capturar com o fundo da minha alma porque sabia que mais tarde teria que traduzir meu sentimento em palavras.

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Palavras que agora custam ser encontradas para transmitir esse encontro de emoções que vivi enquanto trabalhava. Era um sentimento de plenitude, capaz de preencher um ser. Chegava a conversar com as uvas, a tratá-las como se fossem parte intrínseca de mim mesma.

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Dina, Tristan e Alex se encarregavam de levar as caixas enquanto colhíamos. Cada um de nós tínhamos um cesto em que cabiam cerca de 5/10 kg de uvas, mas depois tínhamos que colocar nas caixas que estavam dispostas no centro de cada parreiral para que eles transportassem o mais rápido possível à Adega e não deixassem que a uva começasse a fermentar ali mesmo.

Fiz três pares diferentes durante a jornada. E cada um tinha a sua forma de trabalhar. As 11 horas da manhã fizemos nosso break para tomar um café, comer um pouco e continuar o trabalho. Florence fez um maravilhoso bolo de chocolate que todos queriam a receita.

Uma pausa

Também tínhamos uma variedade de queijos franceses e café com leite para todos. Foi revigorante. O sol já começava a pegar e tínhamos ainda duas horas para continuar. Geralmente Stephane escolhe fazer a vindima entre as 7h e 13h, quando o sol ainda não está alto, aqui na França, para que as uvas não fossem afetadas pelo calor e nem as pessoas.

Nesse preciso dia fazia um temperatura ideal, mas imagino que outros dias de agosto o sol deveria pegar forte. As 10h já estava com proteção solar 50, chapéu e óculos escuros. E ainda assim me queimei um pouco. As uvas estavam em perfeito estado, resultado de um ano de amor e dedicação.

Trabalho duro e dedicado

Todos sabíamos que o que estávamos fazendo ali, toda a colheita era o resultado de um ano de trabalho duro e dedicado. As uvas da casta Carignan são de uma variedade bem doce, que eu diria que podíamos até comer em casa sem saber que é uma variedade para fazer vinhos.

Quanto mais açúcar, mais graduação alcoólica vai ter o vinho na hora de fazer a fermentação. Colhemos as uvas de uma parcela em que as parreiras tinham 60 anos de antiguidade. Isso se traduz em melhor qualidade de uvas, ou seja, que quanto mais antiga uma parreira, se bem cuidada, obviamente, produzem melhores uvas.

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As vinhas velhas produzem os melhores vinhos

As parreiras novas tendem a produzir mais uvas e distribuir as suas propriedades e aromas entre elas.

Quanto mais antiga uma parreira, menos uvas ela produz, porém mais concentração de propriedade e aromas se encontram em cada agrupamento. Por isso muitas garrafas de vinho, quando vendidas tem especificado na sua etiqueta a frase “vinhas velhas” -é uma forma de dizer que as uvas que foram feitas esse vinho tem uma maior quantidade de propriedades e aromas.

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A jornada foi estupenda!

Nesse dia me sentia como se pudesse fazer esse trabalho por anos. Cada grupo de parreiral parecia que falava por si mesmo o muito que foi cuidado durante o ano.

Era como se fosse o trabalho de um poeta: estava colhendo palavras para depois transformá-las em poesia.

Eu colhia uvas que seriam depois transformadas nesse maravilhoso líquido que se encontra dentro da garrafa: o vinho.

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É curioso ver como o trabalho de tantas pessoas se podem encontrar dentro dela. Não era só a minha mão e a minha experiência, mas sim de toda uma gente que ano após ano as colhem, as transportam, as prensam, as provam, até que um dia decidem que essa bebida, essa experiência está pronta para ser compartida.

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Depois da colheita, tivemos um almoço com todos os amigos do casal que vieram para ajudar. Nesse almoço Stephane serviu o vinho da mesma variedade de uva que colhemos, só que nesse caso, colheita do ano anterior. Ali tive contato com gente muito interessante: muitos deles, pequenos produtores de vinhos locais, outros apenas amigos do casal e que se dedicam a algo do setor, etc.

Uma garrafa de vinho como presente

A cada um deles, Stephane os presenteava com uma garrafa de vinho em agradecimento pela ajuda. Não fomos capaz de terminar com toda a colheita na sexta, o que significava que no sábado tínhamos que trabalhar de novo e terminar com a colheita. O trabalho terminava para os amigos de Stephane e Florence, mas continuava para nós.

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Não só no sábado, mas sexta de tarde também com o transporte da uva até a Adega e a limpeza de tudo.

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Ajudamos a transportar as caixas, limpá-las, separamos as uvas dos bagos e colocamos na prensa para que sejam prensadas levemente. Foram no total quase 12 horas de trabalho e sabíamos que sábado tínhamos que terminar com a colheita.

Foi super divertido e a verdade é que não fiquei cansada nenhum minuto. Era o que eu estava esperando: parecia uma criança num parque de atrações. Queria fazer tudo. Aparte dessa experiência, Stephane também conseguiu um cliente.

Que melhor história que pode ter garrafas de vinhos feitas com as uvas que você mesma colheu.

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Amassar uvas com os pés

Mais tarde, Stephane separou duas caixas de uvas para que pudéssemos amassá-las com os pés, só pra ter a experiência de sentir como o vinho era feito antigamente. Ao pisar tínhamos que separar as uvas dos bagos e fazer o trabalho não só de prensa mas também de separação. Foi super divertido.

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Foi um dia pra ficar marcado e espero poder fazer isso durante muito tempo. Porque a vindima, ao contrário do que as pessoas falam não é tão dura. É certo que tem que estar preparado fisicamente e com os músculos das costas muito fortalecidos para não sentir dor, mas é um trabalho recompensador.

Ali sentia a verdadeira história de cada produtor de vinho, de cada agricultor; ali senti a historia que cada garrafa que abro e me quer contar. A história de o trabalho de muitas pessoas, do amor de muitas pessoas, e da dedicação que colocaram para que esta bebida tão maravilhosa, que consideramos sagrada, chegasse a nossa mesa para ser compartilhada.

Um vinho nunca é aberto sem uma boa razão, seja com os nossos amigos, com os nossos amores, com a nossa família ou com quem quer que seja.

Hoje vejo que ao comprar uma garrafa de vinho, ao escolher o dia e o momento para compartir, estamos juntando duas histórias: a das muitas pessoas que trabalharam para que ela chegasse a sua mesa; e a sua, a que você esta compartilhando no momento em que voce “descorcha” uma garrafa, seja com alguém especial ou com você mesmo.

In vino veritas.

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Jaqueline D`Hipolito Dartora
Jaqueline D`Hipolito Dartora
Formada em Jornalismo na Universidade Santiago de Compostela, Jaqueline se identifica como escritora e "vinalogadora". Atualmente dedica-se ao marketing e a comunicação, promovendo eventos que conectam e promovem o diálogo entre o vinho e as artes em geral. Têm também vários projetos paralelos relacionados com as letras e o mundo do vinho. Promove formas mais sustentáveis de vida, sendo uma ativista do uso da bicicleta na cidade e de uma vida mais saudável, lenta e meditada. No seu tempo livre realiza trabalhos voluntários em Vinícolas ecológicas e (WWOOF) y recentemente criou o blog Vinálogos. Colabora com alguns blogs, lojas de vinho, e escreve contos, relatos, ensaios em inglês, português e espanhol.

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