A aldeia medieval de Ribeauvillé
16 de maio de 2017
Já não vivemos no passado, mas sim no futuro…
23 de maio de 2017
Exibir tudo

Ilustraçao: Ana Matsusaki

Quantas vezes você pensou em mudar de vida, em encarar uma nova etapa, largar a família, o marido, o emprego, a cidade, o país e começar de novo.

Você disse que sim já de início ou pensou, pensou, pensou e desistiu?!

Mudanças são complicadas, mesmo quando parece que mal nenhum vai fazer. Pensa numa das mudanças que você fez na sua vida, que hoje parece tão banal, mas que no momento você teve medo.

Por que acontece isso?!

As pessoas são treinadas para ter medo. Desde de criança temos medo, talvez menos medo que agora. Pensa numa criança aprendendo a andar de bicicleta, a dar cambalhotas, a subir na árvore, a nadar. Geralmente eles se lançam, não ficam com medo e se caem, choram um pouco e depois vão e tentam de novo.

Hoje você fala para um adulto aprender a andar de bicicleta e ele morre de medo. E eu pergunto: medo de que??? De cair, de não aprender, de fazer o ridículo???

Outro típico exemplo é quando você bate o carro pela primeira vez, não sabe estacionar, ou tem um acidente. O medo se apossa da gente de tal forma, que em alguns casos passamos tempo sem tirar o carro da garagem, em dirigir, quando todos sabemos que tudo é questão de prática.

O pior é quando teus próprios amigos perdem a confiança em você, e te metem medo de pegar o carro de novo, não querem que você dirija. Por que isso?

O medo é o pior dos tabus para o desenvolvimento do ser humano.

Crescemos, viramos adultos e em vez de enfrentar a vida com coragem, nos escondemos detrás dos padrões estabelecidos para uma vida perfeita. Estudamos, fazemos faculdade, trabalhamos ou prestamos concurso público, buscamos um parceiro, casamos, temos filhos, compramos carro, casa, casa na praia e passamos férias onde todo mundo passa, e todo domingo vamos comer na casa dos pais e, para completar, alguma vez em cinco anos vamos à Europa extravasar em compras.

Se você não tem isso, nem tem perspectiva de ter ou você ainda é jovem ainda ou tá perdido!! Não tem coisa pior que quando você passa dos 30 e todo mundo quer saber se você vai casar, comprar casa, ter filho…

Se você disser que não, prepare-se para um batalhão de argumentos vindo de todo mundo; claro, claro… quem melhor que os seus pais ou os seus amigos para saberem o que mais tem convém?!

Gostaria de saber se todos os casais que eu conheço que fazem isso, quantos são realmente felizes?!

Nada contra esse modo de vida, e se as pessoas estão contentes com ele; adiante!!! Quem sabe os nossos pais, que viveram em tempos tão diferentes e não enfrentaram tantas mudanças de paradigmas como a gente hoje. Ou quem sabe é mais uma desculpa para resignar-se.

Escuto todos os dias as pessoas dizendo que os seus trabalhos não lhes motivam, mas não fazem nada para mudar. Depois de seis anos da empresa não querem sair sem o seu fundo de garantia na mão.

As pessoas estão realmente dispostas a desperdiçar o seu tempo assim?!

A troco de que? De um salário no fim do mês? Passar a semana inteira esperando chegar o fim de semana não é uma forma de viver – é uma forma de malgastar a vida.

O que eu quero dizer é que a vida não tem porque ser aquilo que eu, seus amigos, seus pais ou avós a definem. As escolhas, os gostos, os prazerem são individuais, sobretudo as escolhas.

De repente as pessoas percebem que tomaram a decisão errada, o caminho errado, e pensam que já é muito tarde para voltar. Não é não!!! Tarde é só se você estiver morto. Aí realmente não tem volta atrás.

Mas hoje: hoje você ainda tem tempo. E enquanto você não faz nada, você só está desperdiçando. Você é o protagonista da sua própria história: Se você não decide por ela, ela decidirá por você.

Acho que um dos exemplos de mudança que seguem comigo em minha vida é o da minha avó.

Meu avô morreu em 1997 e desde então minha vó pensou que nunca mais ia conhecer ninguém. Com setenta e muitos anos se apaixonou. Era seu primeiro amor. Se casou com 16 anos e sempre dizia que não sabia o que era sentir isso.

Levou uma vida plasmada nas regras do seu tempo que exigiam-lhe comportamentos e padrões completamente diferente do atual. E ela, melhor que muito jovem que tem por aí, soube se adaptar a essa mudança de paradigma, de costumes e soube buscar a sua felicidade.

Começou viajando por todo Brasil, aproveitando tudo o que podia fazer nesses anos.

Frequentava os bailes da terceira idade e tinha um monte de pretendentes na sua porta. Um dia, quando a estava visitando de passagem pelo Brasil me disse que tinha namorado. E não parou por aí: 6 anos mais jovem que ela.

Muita gente pensou que era muito velha para ter namorado, que o coração não podia resistir, que era complicado nessa idade. Muitos dos seus netos torceram a cara, mas não disseram nada: era a avó, e tinham que respeitá-la.

Dito e feito. Bastou ver a cara de satisfação que tinha ao encontrar aquilo que a fazia feliz que todos aplaudiram o mais novo membro da família. Em pouco tempo, os dois foram morar juntos. E eu passei a ter um “Vôdrasto”.

Minha vó morreu faz um par de anos e fico muito feliz e orgulhosa em ver que foi uma mulher à frente do seu tempo, soube enfrentar preconceitos em prol da sua felicidade.  Hoje quando vejo tanta gente querendo mudar de vida e sem coragem, sempre falo sobre ela, porque de uma forma ou outra ela mudou o destino que os outros traçaram para ela.

Tenho certeza que em algum momento ela vacilou, ficou com medo, teve ciúmes ou até mesmo se arrependeu momentaneamente. Mudanças requerem também muita dose de pragmatismo e cabeça no lugar: saber que nem tudo vai ser um mar de rosas, e que o caminho é longo e muitas vezes duro.

E se não der certo? Eu pergunto sempre, e se der certo?!

Se não der certo você pode simplesmente mudar de novo. A estrada da vida está cheia de bifurcações. Se o caminho não é o certo, vira a direita ou a esquerda. O que você tem a perder?! Já não estava dando certo mesmo!

Comentários Facebook

comentarios

Jaqueline D`Hipolito Dartora
Jaqueline D`Hipolito Dartora
Formada em Jornalismo na Universidade Santiago de Compostela, Jaqueline se identifica como escritora e "vinalogadora". Atualmente dedica-se ao marketing e a comunicação, promovendo eventos que conectam e promovem o diálogo entre o vinho e as artes em geral. Têm também vários projetos paralelos relacionados com as letras e o mundo do vinho. Promove formas mais sustentáveis de vida, sendo uma ativista do uso da bicicleta na cidade e de uma vida mais saudável, lenta e meditada. No seu tempo livre realiza trabalhos voluntários em Vinícolas ecológicas e (WWOOF) y recentemente criou o blog Vinálogos. Colabora com alguns blogs, lojas de vinho, e escreve contos, relatos, ensaios em inglês, português e espanhol.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.