Você é de esquerda ou de direita

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Hoje não existe meio termo no Brasil. As pessoas são ou de direita ou de esquerda. Pelo menos, é assim que se determina nos diálogos inflamados das redes sociais, dentro das famílias e em bate-papos com amigos. As duas posições ganharam força no país depois das eleições presidenciais e se estabeleceram  como rótulo para o brasileiro, com a ação do impeachment.

No sentido exato elas são definidas como lado oposto um do outro, por todos os dicionários da língua portuguesa. No entanto, para o internauta mais acalorado são rótulos usados para discriminar politicamente  qualquer indivíduo que conteste uma ideia contrária a sua.

Tão forte que ecoa em todos os lugares, ‘Você  é esquerda, petista’ ou ‘Você é direita, coxinha’…

No meu caso, pessoalmente, num primeiro momento, esses rótulos me irritavam demais. Depois fui relaxando e me tornando ‘zen’. Lembrei, com isso, de quando jovem estar dançando com um indivíduo e ele, sem o mínimo polimento, a certa altura me perguntou: você está no ataque ou na defensiva? Surpresa respondi sem piscar os olhos e imediatamente: estou ‘zen’.

Que?!!, mais surpreso ficou…( a figura nem sabia o que era zen).

Sem dúvida, é melhor ficar ‘zen’, isto é meditar  no mais clássico ‘zen budismo’, olhando para parede, com seus dedos, o polegar e o indicador juntos(isto é,  sem quebrá-los de tanto apertar), com as mãos sob o joelho, com os olhos revirando de raiva e contando até 10 (esqueçam, esse último detalhe acrescentado por mim, não é nada zen), quando nos deparamos com um inconveniente desconhecido nos rotulando, a bel prazer, quando é contestado. Juro que no meu caso tem sido um grande aprendizado sobre o exercício da paciência. Para manter as amizades, o equilíbrio familiar, ser educada na web, enfim viver numa estável convivência social.

Esses dias, aliás já há alguns meses, tomei conhecimento por intermédio de um desconhecido que sou esquerda por defender um fato. Bom!!!! Nem mais preciso queimar meus neurônios ou ter crises existenciais para saber o que sou! .

Quando me cansei e desistir de comentar e mostrar a minha versão sobre o caso, eu me transformei, para quem há minutos atrás tinha me denominado de esquerda, sem me conhecer,  sem saber sobre minha ideologia e estilo de vida, numa petista sem argumentos. Vejam só que pretensão desse personagem infeliz deduzir a minha filiação política em poucos minutos de discussão!

Lamentavelmente, esse é o quadro nas redes sociais. Isso ocorre quando se cai na asneira de defender uma ideia contrária da dos demais em um post. Os comentários normalmente são exaltados, plenos de rótulos e preconceitos.

Nem se atreva a falar de cultura popular e enaltecer a sensibilidade e o sensorial. Por ter escrito sobre Benzedeiras, fui tachada de cristã idiota, que pelo visto ofendi os mais ‘ferinos’ princípios do energúmeno.

É o lado mau dessa fantástica ferramenta de comunicação que transformou o mundo numa ‘aldeia global’, como já dizia o visionário Marshall McLuhan.

No atual, transviaram a frase de Che Guevara “Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás”. Os homens embruteceram e sobretudo, perderam a ternura. 

A causa…..

Vamos deixar por conta das novas tecnologias que atuam num outro nível da psique humana. Se antes era um carro que aumentava o ego de um indivíduo complexado, agora é a tela do computador ou celular.

No passado era  um escudo que protegia um corpo numa guerra. Hoje a mente- energia do pensamento– está protegida atrás de uma tela de computador ou de um android, Ifhone….

Tudo o que se pensa é dito de forma rápida e voraz. Não existe mais borrão. Rascunho está agonizando, pois os dias estão contados para o e-mail, assim como o jornal em papel impresso e os canais abertos da televisão. A web – a grande teia – é um território infinito, inexpugnável e sem lei…

Abriu espaço para divulgação com liberdade na arte e na literatura, no entanto, intimidou a expressão da criatividade. Ou melhor, abriu espaço também para vulgaridades.

Há décadas, o protesto político era transformado em música e cantada pelos quatro cantos do Brasil.  A exemplo de, “Pra não dizer que não falei em flores”,  de Geraldo Vandré, ….

A charge era temida porque era ácida e inteligente. Sempre com criatividade dava a sua versão, em traços, sobre uma notícia que não era aceita ou algo que era preciso denunciar.  Se aguardava com curiosidade a charge do dia nos grandes jornais.

Onde estão os chargistas?

E as tiras nos jornais, que saudades! Eu sei.. é papo de gente antiga. Mas, tenho esse direito e reconheço com orgulho que protestar e se rebelar com arte e intelectualidade é bem mais divertido. Os recados ficavam por conta das entrelinhas…

Outro exemplo é Quino, o criador da nossa adorável Mafalda. O ilustrador argentino criticava severamente regimes autoritários sem perder o bom humor e a elegância. Mafalda, a danadinha da menina precoce, nunca perdeu a atualidade e está presente até hoje nos corações de gente de todas as idades.

No entanto, a internet –  pode ser um contra-senso dizer – não oculta nada de ninguém e esconde a face do que não tem. Mente e fala a verdade.

Imaginem a maioria dos ‘caciques’ políticos, as ‘velhas raposas’, perdidas nesse emaranhado tecnológico. Estão a todo momento precisando rever suas estratégias.  Com certeza, já perderam o chão inúmeras vezes, pois são de um tempo em que se pagava para abafar fatos indesejados, críticas negativas, provas irrefutáveis.

A internet promoveu a alforria da comunicação tanto para o bem como para o mal. São muitas as agressões gratuitas e muito lixo circulando nesse mundo infinito.

Por fim, há esperança, nem tudo está perdido, somente a web nos dá a fantástica possibilidade de trocar ideias, conhecer pessoas e ter acesso a entrevistas como essa, com o argentino Joaquim Salvador Lavado, publicado no site Socialista Morena. Quando a repórter perguntou para Quino, você é de esquerda ou de direita? A resposta foi uma pergunta. DE QUE LADO BATE O CORAÇÃO?

 

 

 

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Mari Weigert
Mari Weigert
Mari Weigert é jornalista com especialização em História da Arte pela Escola de Música e Belas Artes do Paraná. Atuou na área de cultura, como jornalista oficial do Governo do Paraná. Durante um ano participou das aulas de Crítica de arte de Maria Letizia Proietti e Orieta Rossi, na Sapienza Università, em Roma como aluna ouvinte. Acredita que as palavras bem escritas educam e seduzem pelos seus significados que se revelam na poética da vida. *IN ITALIANO (Mari Weigert è giornalista e perfezionata in Storia dell' Arte per la Embap, del Brasile. Durante un anno è stato alunna di Critica d'Arte, alla Sapienza Università di Roma. Crede nelle parole ben scritte che seducono per le sue significate in cui rivelano la poetica della vita.)

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