Helena Michaud e o apagão na Ilha de Superagui. A morada de Deus

Le foto che valgano oro
17 de dezembro de 2015
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Helena Michaud and the Superagui blackout
20 de dezembro de 2015
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Foto publicada no site http://sardinhaeletrica.blogspot.com.br/2015/02/ilha-de-superagui.htm

Superagui é um paraíso na terra!

A Ilha de Superagui, no litoral do Paraná, é um daqueles lugares paradisíaco, pitoresco, aonde o tempo moldou uma beleza verde tão exuberante para ninguém botar defeito.

Lá somente os plânctons iluminam a escuridão da noite nas águas mansas que descansam na areia. O amanhecer é a poesia do sol surgindo no horizonte e colorindo a paisagem e o entardecer é a luz dourada se espalhando pela baía que começa a silenciar para o repouso.

Uma boa prosa

Nesse espaço bucólico vive uma pequena comunidade que gosta de uma boa prosa e tem muitos causos para contar.

A história do “Apagão” de Superagüi é verdadeira, tanto quanto foi genuína a indignação de Helena Michaud. “O que eu gosto mesmo é de ‘luz de vela'”  – dizia a velha senhora, que era descendente direta do suíço William  Michaud.

Antes contar essa história, criada por uma anciã e finada senhora, que me permita a licença de estar contando esse causo e que descanse em paz sua alma, no meio da floresta linda que sempre amou e viveu! Mesmo que tenha praguejado o ‘apagão’ para comunidade da Barra do Superagui, tenho por esta senhora uma profunda admiração.

Especialmente porque ela foi fiel aos seus princípios.

Helena Michaud não queria energia elétrica

“Não me conformo com esta tal de energia elétrica”, lamentava. “Quando eu morrer quero que a luz elétrica acabe”, profetizava.

Acreditem se quiserem, no dia de sua morte acabou ou melhor apagou tudo. Não é que o apagão foi por 24 horas, até acabar o velório!

Então, dessa forma, esta senhorinha, aos 92 anos, quando faleceu em 1999, ficou famosa na comunidade onde vivia – Barra do Superagui – e o ‘causo’ do apagão é contado sempre em rodas de fogueira, em noite de lua cheia, quando todo mundo se entrega ao gosto de apreciar o mar e jogar um dedo de prosa fora, para o tempo passar neste lugar especial, provavelmente a morada de Deus. É importante citar que a energia elétrica tinha chegado no local um ano antes de sua morte:1998.

William Michaud

Helena Michaud era suíça pelo sobrenome, mas muito, muito brasileira no amor pela natureza. A senhorinha descendia diretamente do europeu William Michaud, que mudou-se da Suíça para este longínquo lugar, lá pelos idos de mil e oitocentos, quando tinha apenas 20 anos.

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Pensem bem, imaginem, o que era a loucura e ousadia de se aventurar a uma viagem de navio a um país como Brasil e aportar num lugar como Superagui naquele tempo – se até hoje é exuberante em sua floresta, quer dizer, até hoje ainda é selvagem, primitivo.

Preservada, Graças a Deus! … e também aos militantes e ambientalistas que tanto lutaram nas décadas de 70 e 80 para evitar a destruição. Abaixo a Capela!! Xô…Xôoo.. Empresas como esta deveriam ser banidas do mundo.

Capela era uma empresa grileira de terra que tentou criar búfalos em Superagui.

Para isso, precisava desmatar tudo. Deu trabalho para homens da lei, caso que pode ser comparado a um filme de bang-bang. Os antigos fiscais do IAP/PR e Ibama são testemunhos de verdadeiras guerras com pistoleiros).

Michaud teve nove filhos

Mas, então, retornando a história de William Michaud, saibam que ele jamais voltou a sua terra natal. Casou-se com uma nativa e teve nove filhos e assim foi ficando e ficando. Como todo europeu, tinha uma educação aprimorada e sabia pintar. Deixou como herança, belíssimas aquarelas que retratam a natureza da Floresta Atlântica do início da colonização do Paraná.

E por falar em herança, os olhos azuis e verdes dos caiçaras de pele bronzeada, traços mesclados entre índio, negro e europeu, é legado deixado por esses primeiros colonizadores, digo esses, porque não foi só Michaud o único aventureiro naquelas paragens.

Alguns franceses também se instalaram por lá e até diz uma lenda, que foi um navio pirata francês que afundou por ali.

Para chegar, neste paraíso na terra, onde os golfinhos nadam de lá para cá, os papagaios da cara roxa voam em bando junto com as suas companheiras – são monogâmicos – todo fim de tarde para voltar a nanar no seu cantinho especial, na Ilha dos Papagaios, na baía de Guaraqueçaba, Reserva da Biosfera, lugar em que o por do sol faz a água virar cor de ouro, é preciso pegar um barco de linha em Paranaguá e aguentar firme três horas de viagem.

A Ilha está localizada dentro do Parque Nacional do Superagui, um dos recantos mais belos do planeta.

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Foto publicada no site http://www.loucosporviagens.com.br/viaje-para-a-ilha-de-superagui-pr/

Plânctons que grudam na pele

Um lugar assim, tão especial, certamente vivem e viveram pessoas especiais como Helena Michaud. Um lugar em que é possível tomar um banho de mar numa noite bem escura e sair iluminada no corpo e na alma, mas, literalmente, no corpo, porque os plânctons em quantidades absurdas grudam na tua pele e te transformam num facho de luz em meio ao breu da noite.

Experiência única, surrealista! É lindo conseguir curtir o mar sem iluminação artificial e sem medo de ser atacada por um maníaco violento. Lá, ainda é possível viver esta paz.

Talvez, Helena Michaud tenha provocado o ‘apagão’ para alertar ao mundo que precisamos dar um tempo, ou melhor , colocar o pé no freio e deter a destruição de lugares tão verdadeiros…Santuários na terra!

  • A Ilha de Superagui está localizada no litoral norte do Paraná, na Baía de Paranaguá, no Município de Guaraqueçaba. Perto da divisa entre os Estados do Paraná e de São Paulo é considerada uma ilha artificial, por ter se formado após a abertura do Canal do Varadouro, separando a península do continente em 1953. A criação do Parque Nacional Superagui, em 1989, favoreceu a preservação da região. A área do Parque é dividida com o Vale do Rio dos Patos.

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Mari Weigert
Mari Weigert
Mari Weigert é jornalista com especialização em História da Arte pela Escola de Música e Belas Artes do Paraná. Atuou na área de cultura, como jornalista oficial do Governo do Paraná. Durante um ano participou das aulas de Crítica de arte de Maria Letizia Proietti e Orieta Rossi, na Sapienza Università, em Roma como aluna ouvinte. Acredita que as palavras bem escritas educam e seduzem pelos seus significados que se revelam na poética da vida. *IN ITALIANO (Mari Weigert è giornalista e perfezionata in Storia dell' Arte per la Embap, del Brasile. Durante un anno è stato alunna di Critica d'Arte, alla Sapienza Università di Roma. Crede nelle parole ben scritte che seducono per le sue significate in cui rivelano la poetica della vita.)

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