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Meu pai fez parte da história do Paraná, Sul do Brasil. Ele presenciou o auge do ciclo da madeira e a decadência das serrarias que tiveram que fechar suas portas, nas décadas 50 e 60, quando a matéria-prima – o pinheiro  (Araucária angustifolia)– começou a diminuir no Paraná.

Sempre que tinha oportunidade Egon Weigert retirava as lembranças lá do fundo de sua mente e as colocava numa roda de filhos e netos, em volta da mesa.Todos escutavam atentamente e seguiam o seu raciocínio que se perdia nos detalhes das aventuras de um tempo de exploração em nosso estado, em que a lei era a força, a ignorância e a violência.

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Acervo Luiz Ernesto Wanke – Vejam só: achei este postal (ou meu filho Marcos) no meio de muitos ( na Fígaro). É da Serraria Olinda de Ponta Grossa, que ficava na Ermelino de Leão. Meu avô materno Theodoro Klüppel (1869- 1913) está em cima das toras.

Papai trabalhou 20 anos na serraria que meu bisavô fundou – Theodoro Klüppel – no município de Ponta Grossa: Indústrias Olinda. Uma empresa que começou pequena e com o passar dos anos expandiu-se e transformou-se numa sociedade anônima. Mas da mesma forma que cresceu, foi ao topo, no final da década de 60, por falta de estrutura e má administração não sobreviveu ao período de escassez da matéria-prima.

Entre uma briga e outra com os sócios, pois meu pai queria a parte dele para refazer sua vida em Curitiba, escutou de seu padrinho e tio o conselho de fazer “uma sopa com as ações”da indústria,considerando que elas não valiam mais nada.

A história da indústria Olinda, aliás é o nome da última filha do meu bisavô Theodoro, teve seu auge em exploração do pinheiro do Paraná lá pelos idos de 1945. É bom fazer um adendo em relação ao fato “explorar”. Quero deixar aqui “minha culpa ancestral”, e confessar que sinto uma dor no meu coração em saber que minha família fez parte da história da quase extinção da nossa árvore símbolo. Prometo que me penitenciarei pelo resto de minha vida em pagar o pecado dos meus antepassados, escrevendo a história e a importância dessa bela e imponente árvore, a Araucária angustifolia!

A indústria tinha uma filial, a Serraria Santa Adelaide, instalada no município de Moquem, em Imbituva, no interiorzão do Paraná. Nesta época, a indústria tinha comprado um pinhal nesta região, que deveria ser explorado em 10 anos. Na década de 40, as serrafitas cortavam dúzias de tábuas por dia. Segundo meu pai, os pinheiros eram apenas aproveitados nos primeiros sete metros de tora, os galhos e a ponta ficavam apodrecendo no mato.

Mas a etapa mais tumultuada da história começa quando acaba os pinheiros em Imbituva. A Serraria Santa Adelaide foi transferida para Pitanga e neste município foi comprado um pinhal no imóvel Boaventura. Se muita gente não sabe, essa região do Paraná era quase um cenário dos filmes antigos de bang-bang americano, naquela época.

O Boaventura foi um dos maiores grilos de terra do nosso estado (quando diversas pessoas se apossam da terra e existem vários documentos de compra e venda falsificados). Este grilo levou quase 100 anos para ser regularizado. Eu cheguei a presenciar parte desta regularização como jornalista da Governo do Estado.

Meu pai já contava que áreas de pinheiros, no imóvel, eram vendidas a três ou mais pessoas ao mesmo tempo. O roubo de madeira era constante e se desenvolvia um círculo vicioso. Todos se achavam no direito de derrubar as árvores. A disputa acontecia no momento do corte da madeira. Enquanto uma serraria cortava os pinheiros e estaleirava as toras no mato, para mais tarde transportá-las em caminhões, outra serraria rival, que também tinha pago pelo pinhal, roubava as toras cortadas. Assim, entre ameaças e brigas, o roubo era intercalado entre uma área e outra.

Isso sem contar os tiroteios. Um dos sócios, o mais velho deles, foi protagonista, por acaso de um destes tiroteios. O fato aconteceu porque um grileiro de terra que vivia na região atormentava os posseiros que viviam no imóvel, tirando-lhes a terra e os pinheiros.

Certo dia, os posseiros se reuniram para preparar uma emboscada e matar essa pessoa. E conseguiram. Porém, exatamente neste dia o sócio de meu pai, precisou levar a filha grávida ao hospital e foi obrigado a passar pelo local da emboscada. Só não saiu ferido porque foi ajudado por amigo. Mas, depois que o susto passou a história da aventura foi contada durante anos, com brilho nos olhos e paixão pela emoção vivenciada.

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http://www.conifers.org/ar/Araucaria_angustifolia.php

Dessa forma, as famosas matas pretas, as florestas de pinheiros, foram sumindo da paisagem paranaense. Antes cobriam parte total do território. Hoje, o Paraná tem menos de 2%. São chamadas matas preta porque se destacam pela cor escura do verde visto à distância.

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Pinheiro do Paraná – Egon Weigert – Década de 90

O Paraná perdeu a beleza de suas matas e meu pai perdeu dinheiro e ganhou lembranças. Como tributo a esta árvore magnífica passou os últimos anos de sua vida pintando telas que tinham sempre, como cenário de fundo, o pinheiro do Paraná….

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IMG_5938Hoje, em Curitiba conseguimos ver alguns pinheiros perdidos pela zona urbana. São proibidos de corte e sofrem o impacto da poluição viária, no entanto, permanecem impávidos e imponentes com sua copa em forma de taça, aberta para o céu.

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Mari Weigert
Mari Weigert
Mari Weigert é jornalista com especialização em História da Arte pela Escola de Música e Belas Artes do Paraná. Atuou na área de cultura, como jornalista oficial do Governo do Paraná. Durante um ano participou das aulas de Crítica de arte de Maria Letizia Proietti e Orieta Rossi, na Sapienza Università, em Roma como aluna ouvinte. Acredita que as palavras bem escritas educam e seduzem pelos seus significados que se revelam na poética da vida. *IN ITALIANO (Mari Weigert è giornalista e perfezionata in Storia dell' Arte per la Embap, del Brasile. Durante un anno è stato alunna di Critica d'Arte, alla Sapienza Università di Roma. Crede nelle parole ben scritte che seducono per le sue significate in cui rivelano la poetica della vita.)

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