A fuga do Neco
30 de abril de 2015
A world made of books
1 de maio de 2015
Exibir tudo

Fim de tarde na janela

Sombra de primavera

Gente com expressão severa

Cenário de quimera

 

Criança brincando na praça

Armários impregnados

De naftalina e traça

A mãe amorosa cada filho incondicionalmente ama e abraça

 

Eucalíptos centenários

Abarrotados de canários

Sob a sombra deles

Longos descansos de visionários

Cheios de sonhos revolucionários

 

Gramado picotado

Feito colcha de retalhos

Caminhos estreitos se abrem em atalhos

Cigarras cantarolando

No tronco dos carvalhos

 

Senhoras conversam

Ressuscitando memórias

Orgulho sentem das próprias trajetórias

A vida delas se resume num redemoinho de estórias

 

Homens mastigam

Cigarros de palha

Rostos marcados

Pelo fio da navalha

 

Formigas nos roseirais em batalhões

Gás queimando nos botijões

Panelas borbulhando nos fogões

Cabeças povoadas de elocubrações

 

A escuridão vem caindo

Lampeões de rua reluzindo

Energia dos corpos se esvaindo

Tempos de vida subtraindo

 

Esquinas vivendo a solidão

Da falta de multidão

Grupos de jovens tentando compor por detrás de portas

Serestas com violão

Cada um desfilando sua rica aptidão

 

Gafanhotos saltam em bando

Sonatas repletas de encanto

Sombras se movem

Causando nas crianças arrepio e espanto

 

Hora da ceia

Aranha pousa na teia

Sangue correndo na veia

Paz na alma se anseia

 

Família reunida

Ao redor da mesa

Olhares de incerteza

Preocupações em correnteza

 

Oração de mãos dadas

Almas entrelaçadas

Mangas arregaçadas

Preces de bem querer para todos endereçadas

 

Cabeças tombam nos travesseiros

Toque de recolher nos vespeiros

Encontram-se nos braços do outro

Comprometidos parceiros

 

O sono torna-se palco

De desejos incandecentes

Os inquietos se contorcem

Em pesadêlos intermitentes

 

A vela desfalece

Derretida no pires

Luz de uma vida

Repleta de cicatrizes

Destinos sem diretrizes

 

O dia chega ao fim

Vaga-lumes desnorteados no jardim

O ar da noite impregna-se de perfume de alecrim

No livro de receitas, a página marcada é de

Deliciosa sobremesa de quindim

 

O amanhã

Reserva mais um dia de luta

Jornada de sôfrega labuta

Imperiosa é a necessidade de força bruta

Para fazer nascer e crescer  do solo nú

A beleza, o frescor, o sabor da árvore e sua fruta

 

Retrato de um instante

Pulso do movimento

Metamorfose do desdobramento

Vidas em inexorável amadurecimento

 

Um dia destes vira isca

Do esquecimento

Páginas perdidas ao relento

Nostálgico passatempo.

Comentários Facebook

comentarios

Simone Bittencourt Shauy
Simone Bittencourt Shauy
Enfermeira, escritora e ilustradora. Escrever para ela é intuição e exercício de liberdade.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.