"Cores carregam metáforas de culturas inteiras". A frase é da escritora americana Ellen Melloy. Pensem um pouco e reconheçam que é verdade!

Caro leitor, olhe para um povo e veja como ele se representa nas formas e nas cores. A partir disso, já poderá defini-lo em suas características antropológicas e arriscando um palpite, psíquicas.. Ellen Melloy ( 1946-2004) fez um estudo  interessante no livro The Anthropology of Turquoise.

A pequena introdução é para falar sobre uma matéria fantástica, num site incrível chamado BrainPicking, cuja editora é Maria Popova. O artigo foi publicada com  o título A consciência das cores, da química à cultura. O texto nos faz pensar no quanto as cores englobam um conteúdo infinito de significados.

Não só como tonalidade que define a matéria, mas a análise vai mais adiante e trata do assunto pela linguagem, semântica e sensações . Sem entrar no campo do esoterismo, porém com argumentação poética. 

Maria Popova não se restringe apenas a Melloy, mas cita outros autores, numa pesquisa literária excepcional sobre a química da cores.

A newsletter do BrainBicking  recebo religiosamente no e-mail toda semana há muitos anos, Coloco nessa afirmação muitos anos e a editoria do site nunca falhou, com um conteúdo fabuloso e profundo.

Maria Popova é uma escritora búlgara,  naturalizada americana, que tem uma maneira muito peculiar de pedir apoio dos leitores.

Brain Pickings é o meu trabalho feito com amor de uma só mulher. Desde a sua criação em 2006, tenho trabalhado arduamente para mantê-lo um espaço de leitura contemplativa livre de anúncios e interrupções comerciais – algo importante para mim e, espero, para vocês – apoiado por leitores como vocês. Pesquisar e escrever leva quase todas as horas do meu dia e milhares de dólares por mês para sustentar. Se encontrar aqui alguma alegria, consolo e inspiração, por favor considere uma modesta doação – por muito que possa pagar, ela significa e ajuda mais do que possa imaginar.

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A delicadeza como Maria Popova coloca a sua solicitação para receber ajuda já faz com que o leitor tenha de bom grado a iniciativa de colaborar. É uma pena que sou brasileira e não recebo em dólares porque teria um grande prazer em ajudar a manter um conteúdo desses, disponibilizado no site.

Outra questão é sobre a história do BrainPickings. Muito semelhante ao do PanHoramarte. Criei o site em 2006 também como forma de divulgar uma pesquisa sobre internet e artes plásticas. Fui tomando gosto pelo trabalho e dedico até hoje uma parte do meu tempo para escrever com muito amor. O Pan teve alguns colaboradores incríveis, mas hoje estou sozinha atualizando-o e durante muitos anos não usei anúncios. Hoje estão entrando sem muito sucesso na receita, porém até como forma de entender o monopólio comercial que impera na internet com base nas diretrizes dos gigantes: Facebook  e Google.

Um parênteses apenas para voltarmos ao tema cores e o artigo apaixonante de Maria Popova, cujo o conteúdo vou publicar apenas uma parte dele. Um verdadeiro tratado sobre as tonalidades, cores, existentes no planeta Terra, que vamos reproduzir aqui:

“‘A água azul profunda do mar aberto longe da terra é a cor do vazio e da esterilidade; a água verde das zonas costeiras, com todas as suas tonalidades variáveis, é a cor da vida’, escreveu Rachel Carson ao iluminar a ciência e o esplendor do espectro marinho, enriquecendo o cânone literário das meditações mais belas da história sobre a cor azul.

A cor da vida, o verdadeiro matiz cromático que faz do nosso planeta rochoso um mundo vivo, está algures entre o azul da água e o verde da terra – quando Carl Sagan olhou para a fotografia granulada da Voyager (sonda americana) da Terra vista dos confins do Sistema Solar pela primeira vez, elogiou o nosso Pale Blue Dot. Mas a cor desse ponto “suspenso num raio de sol” está mais entre o azul e o verde: um pixel de turquesa.

Essa cor – a sua ciência cromática e a sua simbologia cultural – é o que Ellen Meloy (21 de Junho de 1946 – 4 de Novembro de 2004) explora em A Antropologia de Turquesa: Reflexões sobre o Deserto, o Mar, a Pedra e o Céu.

 

 

 

Roda de cor baseada no sistema de classificação do químico francês Michel Eugène Chevreul de Les phénomènes de la physique de Amédée Guillemin, 1882.
Light distribution on soap bubble from Les phénomènes de la physique by Amédée Guillemin, 1882.
Art from Geographical Portfolio — Comprising Physical, Political, Geological, and Astronomical Geography by Levi Walter Yaggy, 1887

Dois séculos depois de Goethe ter escrito na sua poética, filosoficamente promissora, mas cientificamente incorrecta teoria da cor e da emoção que “as cores são os actos e os sofrimentos da luz” e duas gerações depois de Frida Kahlo ter considerado o significado das cores, Meloy faz a ponte entre o metafísico e o científico através da corrente subterrânea da poética:

Não há região mais fértil de subjectividade do que a linguagem – o esforço humano para conter o incontrolável, o fluido, o nuance em vasos de conceito e categoria. A ausência de limites cromáticos do espectro tem, portanto, uma relação peculiar com a linguagem, expondo as limitações do nosso instrumento primário de produção de sentido contra as vistas ilimitadas da natureza. (Pode ter sido por isso que Darwin levou consigo no The Beagle uma nomenclatura pioneira de cor, ao pretender classificar, categorizar, e dar sentido ao mundo natural). Numa passagem que ilustra quão primordial é a ligação entre o corpo e a mente, quão inseparável é a nossa psicologia da nossa fisiologia, Meloy escreve:

As cores desafiam a linguagem para as englobar. (Não é possível; há mais sensações do que palavras para elas. Os nossos olhos estão muito à frente das nossas línguas). As cores suportam as metáforas de culturas inteiras. Transmitem todas as sensações, desde a luxúria à desconfiança. Elas brilham fluorescentes nos flancos de um peixe fora de água, e depois fogem à sua morte. Marcam a terra de uma divindade mulher que controla a chuva suave do deserto. As flores usam as cores impiedosamente para o sexo. As traças roubam-nas do seu ambiente e desaparecem. Um polvo comunica por cor; um rubor de polvo é uma linguagem. Os humanos imbuem as cores como antídotos para a monotonia emocional. As nossas vidas, quando prestamos atenção à luz, obrigam-nos a empatia com a cor.

Dentro de cada cor reside uma história, e as histórias são o agente aglutinador da cultura.

 

“Olhem para esse ponto. Isso é a nossa casa. Isso somos nós. Nele, todos a quem ama, todos que conhece, qualquer um dos que escutamos falar, cada ser humano que existiu, viveu a sua vida aqui. O agregado da nossa alegria e nosso sofrimento, milhares de religiões autênticas, ideologias e doutrinas econômicas, cada herói e covarde, cada criador e destruidor de civilizações, cada rei e camponês, cada casal de namorados, cada mãe e pai, criança cheia de esperança, inventor e explorador, cada mestre de ética, cada político corrupto, cada superestrela, cada líder supremo, cada santo e pecador na história da nossa espécie viveu aí, num grão de poeira suspenso num raio de Sol”

A citação acima faz parte do livro homônimo de Carl Sagan, Pálido Ponto Azul, lançado em 1994 e que teve como inspiração justamente a foto da Voyager 1 tirada quatro anos antes.

Num sentimento evocativo do montanhista escocês e poeta Nan Shepherd, a adorável observação de que “lugar e mente podem interpenetrar até que a natureza de ambos seja alterada”, acrescenta Meloy:

Entre os sentidos e a razão encontra-se a percepção. Em casa ou no campo, que é onde reside o espanto, evitando a explicação… A intoxicação com a cor, por vezes subliminar, frequentemente feroz, pode expressar-se como um profundo apego à paisagem. Tem sido dito com razão: A cor é o primeiro princípio do lugar.

Blues da Nomenclatura de Cores do Werner: Adaptado à Zoologia, Botânica, Química, Mineralogia, Anatomia, e Artes, que inspirou Darwin.

Lemos a cor da forma como lemos o lugar: através dos nossos sentidos – estes proboscides de consciência, cada vez mais cortados por uma cultura que nos rapta longe dos nossos corpos para manter a nossa consciência refém antes e atrás de ecrãs. Poeta ecoante e historiadora da ciência Diane Ackerman – que escreveu de forma tão bela na sua História Natural dos Sentidos que “não há forma de compreender o mundo sem primeiro o detectar através da rede de radar dos nossos sentidos” – Meloy escreve com urgência com alma:

Cada um de nós possui cinco mapas fundamentais e cativantes para o mundo natural: visão, tacto, paladar, audição, olfacto. À medida que desvendamos os fios que nos ligam à natureza, como denizentes de dados e artifícios, no meio de multidões e desordens, tornamo-nos avarentos com estes leais e requintados guias, entorpecemos a nossa inteligência sensorial. Esta falta de atenção fará de todos nós órfãos.

Arte do Portfólio Geográfico - Compreendendo Geografia Física, Política, Geológica e Astronómica de Levi Walter Yaggy, 1887.

Unindo o humano e o científico com o seu próprio ser, unindo a criatura e o geológico com a sua própria existência efémera, Meloy pinta a psicogeografia da cor:

Como habitante do deserto, acredito que a água é uma entrada mais verdadeira para o lugar. No Ocidente, a aridez define-nos. Há água abundante aqui no Yucatán – oceano, pântano, lagoa, rios subterrâneos, cenotes (poços naturais onde a água doce emerge), uma floresta tropical inchada com transpiração. As tempestades trazem um furacão de torrentes ou nada; mesmo as selvas têm secas. Por invasão e pura presença, o mar empurra-se para o que é potável e o que se ouve, ou o que se perde quando se está distante do surf. O mar tem uma abundância de conforto, inspiração e perigo, tudo aquilo de que uma pessoa precisa para se elevar a toda a amplitude da beleza. Parece que se permitirmos que esta beleza se torne em branco, se virarmos as costas aos azuis e negarmos a nossa dependência deles, poderemos perder o nosso lugar no mundo, as nossas acções tornar-se-iam pequenas, a nossa alma desengatada.

Foto por Mari Weigert - Florianópolis Santa Catarina - Brasil
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