Paulo Sá Brito

Minha vida admite poucas surpresas, mas ontem levei um tranco. Todos os dias estaciono o carro no subsolo, caminho pequeno trecho na garagem, desviando manchas de óleo, e logo alcanço o elevador.

Prédio velho, o elevador desloca-se com a lentidão dos movimentos do tai chi chuan e eu, se gostasse deles, diria que o aguardo com a paciência dos orientais. Entre premer o botão e escutar os freios rangentes, uma eternidade. Quando comprei o apartamento nem pensei no incômodo diário para abrir a porta do elevador. Ao contrário, admirei aquela estrutura de metal dourado, considerei um charme o prédio ser antigo, elevador todo aberto, permitindo se deslocar vendo as paredes, as portas dos andares desfilando diante do nariz. Nem me importei com o tempo gasto pela geringonça para percorrer oito andares até meu pavimento, num arrastar de correntes e entrechocar de ferros que, agora, invariavelmente causa a impressão de que irei despencar. Quando comprei o apartamento andava deslumbrado com Buenos Aires, o ar europeu, a elegância dos argentinos vestindo capas de gabardine. Como não podia me mudar para lá, decidi morar num edifício vetusto, feito aqueles da calle Suipacha, especialmente os situados entre a Corrientes e a Córdoba, para onde eu desceria num final de tarde e tomaria café, envolto em cachecol, coberto por boné de lã, encarando o frio portenho. Os brasileiros detestam os argentinos. Eu não. Odeio os de olhinhos puxados, esses que me massacram diariamente na empresa. Raro o dia em que não retorno para casa extenuado depois de suportar por dez horas aquele bando de japoneses e constatar que essa fama de perfeição, essa ideia de serem melhores em tudo, é uma bobagem. Os japoneses da empresa e o elevador do meu prédio se parecem: lerdos, antigos, irritantes.

 Há meses instalaram um espelho ocupando a parede do fundo do elevador. Aproveito a demorada viagem para me observar. A luz fria acentua a cor cadavérica, carente de sol, amplia as olheiras empapuçadas por duas bolsas de gordura. Confiro os cabelos rareando no alto da cabeça e comprovo: vou ficar careca antes dos fios se tornarem grisalhos. Assim foi com meu pai, teimava em esconder a calvície com um herético repartido no cabelo. Para não correr riscos de ficar despenteado, duas providências inevitáveis: excesso de laquê e o trajeto por ruas onde só pudesse ser apanhado por vento a estibordo. Perfilo-me e noto a protuberância da barriga tentando saltar para fora das calças. Embora constate essas imperfeições, o ego me induz a concluir que o aspecto geral é razoável, ainda posso chamar a atenção das mulheres. O enorme bigode sempre bem aparado, o queixo saliente indicando determinação, o rosto quase sem rugas prolongando uma juventude que já se foi, os braços ainda fortes e esse modo informal de me vestir, simulando uma casualidade que esconde o tempo perdido a cada manhã escolhendo a melhor combinação entre camisa e calças, entre cinto, sapatos e meias. Além de portar sempre sobre os ombros, aproveitando o frio que faz por aqui, um casaco jogado de forma a aparentar, ao mesmo tempo, desleixo e esmero. Jamais saio do banho matinal sem aplicar desodorante nas axilas e sem borrifar alguma colônia no peito, nos pulsos e em torno do pescoço.

Um solavanco indica que atingi meu pavimento. Caminho no escuro até o apartamento porque a célula fotoelétrica que deveria acionar automaticamente a lâmpada deve ser japonesa. É tão vagarosa quanto o elevador e quando decide clarear a passagem já estou trancando a porta e iluminando a sala com a tonalidade azulada do televisor, acionado assim que entro, sem sequer acender as luzes, porque ao sair, a cada manhã, o desligo da porta e deixo o controle remoto sobre a mesa.

Moro sozinho há quase vinte anos. Aos poucos, sem planejar, fui estabelecendo rotinas. Não lembro quando comecei a seguir, diariamente, o mesmo rito. Só notei possuir hábito de fazer tudo sempre do mesmo modo quando convivi, dentro do apartamento, por uns quinze ou vinte dias, com a Leda. Depois de diversos desentendimentos menores, o ápice aconteceu num final de tarde, quando não encontrei o controle remoto sobre a mesa, no lugar de sempre. Obriguei-me a acender a luz e vasculhar até achá-lo jogado no meio das almofadas do sofá. Irritado, mirei para o televisor e cliquei. Ao invés de aparecer a imagem do canal de notícias surgiu uma novela. E o volume estava muito mais alto do que sempre. Berrei, Leda, quem mudou o canal? Ela veio assustada lá do quarto, enfiando os braços numa camisa minha, falando baixo, entre incrédula e revoltada, Fui eu, por quê? Nem o rostinho angelical, nem os seios aparecendo sob a camisa entreaberta, nem a calcinha branca de algodão, nem as pernas de fora, muito menos os belos olhos espantados, atenuaram minha explosão, Porra, faz mais de dez anos que eu sempre chego aqui, ligo a TV, assisto ao noticiário das sete e, hoje, esta merda deste controle estava escondido não sei onde.

Não recordo os detalhes da discussão, lembro-me apenas de, na manhã seguinte, ela ter apresentado dezenas de razões para ir embora. Enumerou dúzias de manias minhas, que denominou de idiossincrasias. Acusou-me de praticar pequenas loucuras que, segundo ela, tornavam impossível vivermos sob o mesmo teto. Apesar de um pouco triste, confesso ter me sentido aliviado. Voltaria ao prazeroso silêncio de minhas noites solitárias, desincumbido da laboriosa tarefa de debater o menu do jantar, de decidir se iríamos ou não ao cinema, de escutar o que ela fizera durante o dia e, ainda, sentir-me pressionado a contar alguns acontecimentos lá da empresa. Geralmente eu inventava algo.

 Meu dia-a-dia no trabalho é de uma habitualidade modorrenta, não se altera nem pela aporrinhação dos japoneses. Sobre isto eu urdia algumas histórias sem qualquer compromisso com a realidade, mas que propiciavam o diálogo e a indignação de Leda. Adorava ver sua expressão de revolta: os lábios levemente entreabertos, o rosto inclinado para a esquerda e as sobrancelhas se aproximando do topo do nariz. E depois a verborreia, desancando os nipônicos. Quanto mais eu alimentava seu ódio aos orientais mais sentia vontade de beijá-la, de agarrá-la. Controlava minha lascívia só pelo prazer maior de ver ampliadas a veemência e a zanga naquele rostinho de menina. Inventava tanto que me obriguei a anotar alguns nomes e situações fictícios para mais tarde não entrar em contradição.

Enquanto escuto o noticiário preparo com apuro, com requinte, uma cachimbada. Escolho um entre os catorze cachimbos ingleses que mantenho descansando na estante, manuseio o fumo com a ponta dos dedos, deixando-o mais solto, preencho o fornilho aos poucos, com calma, pressionando suavemente para que não resulte nem muito apertado nem muito fofo. Uso exclusivamente fumo inglês. Os melhores. Os mais adequados a esse autêntico hábito londrino. Se Londres fosse tão perto quanto Buenos Aires, escolheria morar lá. De preferência em Knightsbridge, próximo ao Queen’s Gate. Caminharia por aquelas ruas de casas baixas com trepadeiras avançando pelas fachadas, perderia meu olhar na paisagem enevoada enquanto sorveria o aromático fumo Half and Half num genuíno cachimbo Dunhill.

Acendo o cachimbo apenas guiado pelo tato, os olhos pregados na apresentadora do telejornal. Apaixonei-me por essa mulher e já nem consigo prestar atenção nas notícias, embevecido com os olhos verdes, o cacheado dos cabelos e o exagerado sotaque carioca. Mantenho com ela um affaire, embora, é óbvio, ela não saiba. Namoro à traição, confesso zombando de mim mesmo. Há anos tem sido assim: prefiro os amores platônicos, as paixões apenas fantasiadas, do que o convívio cotidiano com as mulheres. Quanto mais elas me causam medo da proximidade, mais eu as desejo na imaginação.

Quase não percebi o ruído, tão vidrado estava na moça do telejornal. Lembro vagamente de algo perturbando a voz segura da apresentadora. Apenas no dia seguinte, quando se repetiram as batidas intermitentes, notei virem do apartamento de cima. O movimento ritmado, a cadência regular feito a pulsação, impacientou-me a ponto de levantar para apanhar o controle remoto sobre a mesa e diminuir o volume do televisor. Não havia dúvidas, algo se chocava contra a parede. Estava pronto para esbravejar, bater com o cabo da vassoura no teto, ligar para a portaria quando, entremeados com as batidas, percebi uns murmúrios picantes. Fiquei quieto, sentado diante da tela muda. Segurando o cachimbo com a mão esquerda, fixado nos olhos verdes da apresentadora, acompanhei o balanço ritmado dos baques na parede entreouvindo, vez ou outra, um rumor de gemidos. Só podia ser um casal, no apartamento justamente acima do meu, transando. De olhos fechados, deixei os sussurros e os ais me invadirem. Desfrutei, solitário, o prazer.

Na noite seguinte, assim que retornei do trabalho e abri a porta do apartamento ouvi as batidas. Apressei-me para sentar diante do televisor, acender um cachimbo e deixar transcorrer lentamente esses quinze minutos divinos, tomado por uma excitação que há tempo não me atingia. O fim das batidas foi acompanhado por um gemido agudo no andar de cima que, como o solavanco do elevador, me trouxe num átimo para a realidade.
A cena repetiu-se, com mínimas variações, durante alguns dias. Aproveitei para incorporar mais uma rotina: estacionar o carro no subsolo, caminhar o pequeno trecho de garagem, desviando manchas de óleo, entrar no elevador, acionar o 8, perfilar-me diante do espelho e fantasiar o cenário no andar de cima.

Anteontem uma sorte rara: o elevador esperando no subsolo. Embarquei e depois de um pequeno trecho um solavanco por um triz não me derrubou: a geringonça parou no térreo. Subiu uma gata vestindo miniblusa, calça jeans com cintura baixa quase mostrando os pelinhos pubianos, exagerados óculos escuros escondendo todo o rosto. Nem olhou para mim e apertou o botão no 9. Parou de costas e, enquanto eu examinava de soslaio o traseiro arrebitado, ela mirava-se no espelho. Uma sacola nas mãos deixava entrever um guarda-pó branco. Professora? Pela primeira vez eu apreciava galgar os andares bem devagar, lutando para disfarçar não ter notado aquela exuberância de mulher. Ela me aguçando o desejo, virada para o espelho do mesmo jeitinho que dona Adelina, a professora da quarta série, encarava o quadro-negro fingindo não notar meu tesão.

Quando percebi chegar no 8, preparei-me para o tranco. Ela quase se desequilibrou. Desci. Ao invés de seguir para o apartamento, parei no vão da escada e esperei ela sair no andar de cima, na tentativa de descobrir em que apartamento morava. Este indolente elevador demorou tanto que deu tempo até para a lesma da célula fotoelétrica acionar a luz do corredor. Encostei na parede para não ser visto. Ela apertou uma campainha. Pelo ruído da porta, não tenho dúvidas: é no apartamento bem em cima do meu. Segui perturbado para completar mais uma etapa do novo ritual: sentar-me na penumbra azulada e muda da sala e saborear a volúpia desses memoráveis quinze minutos.

Ontem os japoneses me seguraram até mais tarde na empresa. Já não basta aturá-los das oito da manhã às seis da tarde, ainda inventam umas horas-extras. Logo eu, que gostaria de cultivar o hábito londrino de tomar o chá das cinco, de preferência no The Georgian, chego esbaforido ao edifício, correndo, com a certeza de que já perdi os quinze minutos de prazer. Um século para o elevador aparecer. Embarquei. Mal ele se deslocou, um safanão. Paramos no térreo. A gatona que cruzara comigo anteontem, agora vestindo avental e gorro, empurra o vizinho do apartamento de cima numa cadeira de rodas. Prestativo, apressei-me em puxar a porta de ferro do elevador. Desajeitado, esbarrei nas pernas do vizinho, que soltou um gritinho. O mesmo gemido que eu vinha escutando há dias. Não sei se movida pelo meu espanto ou apenas por boa educação, a moça atalhou antes que eu pedisse desculpas, Não se preocupe, não foi nada, ele ainda sente dores depois do acidente, mas está cada dia melhor com as massagens. E esboçou um sorriso enigmático.

8 de setembro de 2021

Oitavo andar

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