Para saber como sobreviveu ou como vive hoje uma cidade que antes tinha alma alemã/prussiana e hoje é polonesa!
Mas a grande motivação era saber como era a terra onde minhas bisavós nasceram quando era Breslau.
Hoje é Wroclaw, polonesa, anexada à Polônia depois da II Guerra Mundial. A cidade mudou de nome, mas não o chão. A língua muda, as fronteiras também, no entanto o rio Oder continua correndo no mesmo lugar.
O mais interessante dessa história ancestral foi a trajetória de Anna Paulina Hanzel Weigert, que mais chamou atenção e motivou a mim e minha filha a visitar uma cidade que antes era multicultural. Viviam nela alemães, judeus, polacos, tchecos, num local que proliferava o comércio, universidades, música, cafés e arquitetura.
Anna Paulina tinha 32 anos quando saiu de Breslau em 1880, na Breslávia, área que fazia parte do Império Prussiano. Com seus quatro filhos, a mais velha Marie ( com nove anos, tornou-se minha bisavó materna) pegou um navio e foi atrás de seu marido Hermann no Brasil, precisamente em Morretes, onde ele estava trabalhando como ferreiro na Compagnie Générale de Chemins de Fer Brésiliens, para fazer os rebites na Estrada de Ferro Curitiba/Paranaguá e que não dava notícias há quase um ano.
Vocês podem imaginar uma jovem mulher sair de sua casa, de uma cidade estruturada e encontrar seu marido, sem se comunicar com ele, num país distante e diferente! A sua coragem me impulsionou a saber de onde ela saiu e até o por quê realmente?
Ao conhecer Wroclaw, antes Breslau, não encontrei nada que lembrasse a passagem dela na sua cidade natal. Apenas uma rua dedicada aos comerciantes de carne (o seu pai era açougueiro e quando Anna foi embora, ele e sua mãe já tinham falecido).
As bisavós Anna Pauline (32) e sua filha Marie (9 anos) e mais três crianças não fugiram da catástrofe da guerra. Provavelmente, o seu marido e ela foram em busca de uma vida melhor. Fugiram do tempo, da pobreza e da falta de futuro. Mas eram demais de aventureiros, não acham?
Bem, história de família à parte e vamos focar em Wroclaw.
Após a segunda guerra Breslau deixa de existir oficialmente. Wroclaw passa a ser polonesa. Os alemães são expulsos, poloneses são deslocados do leste e chegam numa cidade que tinha alma estrangeira e foi reconstruída sobre ruínas alheias. Wroclaw não é cidade, é sujeito; já foi alemã, já foi quase destruída, hoje é jovem, cultural e cheia de memórias.
Anna Paulina não viu a metamorfose de sua cidade natal, pois morreu em 1933. Mulher audaciosa que não pensou duas vezes em ir em busca de sua vida ao lado do marido, vencer um oceano misterioso e as incertezas de um país desconhecido e se instalar num acampamento.
Instalação do artista polonês Jerzy Kalina, Transição 1977-2005, colocada na calçada de uma das principais avenidas de Wroclaw. cruzamento das ruas Świdnicka e Piłsudskiego. Jerzy Kalina registrou magnificamente esse eterno caminhar dos povos, que são manipulados como se fossem parte de um teatro de fantoches.
Breslau ficou para trás como ficam as cidades que não cabem na mala – inteiras, silenciosas…. Os novos moradores se instalaram nas cinzas daqueles que se foram sem deixar pegadas. A partir daí construíram uma nova história.
Pouca coisa sobrou de Breslau de 1800. Apenas uma rua rregistra o que foi o passado, com seu comércio de carne, além do centro histórico com a Praça do Mercado. Nesta rua provavelmente, meu tataravô mantinha o seu açougue. Hoje, as pequenas habitações são comércios de souvenirs e ateliê de artistas.
Wroclaw hoje é uma cidade linda, com gastronomia polonesa (deliciosos pieroguis), restaurantes, bares, hotéis e uma excelente cerveja e belos passeios em locais históricos.
Um divertido jogo é achar os anõezinhos de Wroclaw. Hoje estão espalhados pela cidade (mais de 600) diversas esculturas de gnomos representando profissões. Eles têm origem em um movimento de resistência chamado “Laranja Alternativa”dos anos 80, que usava grafiti de anões para desafiar o regime comunista.
O rio Oder continua no mesmo lugar e agora com muitos passeios de barcos para apreciar os locais turísticos sob as águas. Tão velho e cheio de histórias míticas como a lenda do dragão de Wroclaw que ensina que a astúcia vence a força bruta. O dragão do rio Oder foi vencido pela inteligência de um jovem artesão que teve a ideia de enganar o monstro, fantasiado também de dragão oferecendo-lhe um animal recheado de substâncias inflamáveis. Após comer, o dragão sentiu uma sede insuportável e bebeu tanta água do Oder que explodiu.
Breslau/Wroclaw tem mais de mil anos de história. A cidade ficou com suas memórias e as mulheres da minha família foram embora sem deixar rastro!

