COVID 19: espanhóis dão lição de solidariedade

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The doctor, Salvador Dalí

The Doctor. Salvador Dalí. 1980 foto via Pinterest,

Todos estão acompanhando os acontecimentos dia a dia, hora a hora, sobre o COVID 19 e a sua expansão sem freio em todo o mundo. Também estamos vendo como a Europa tem tomado medidas drásticas, nunca antes vistas, para frear a expansão desse vírus, que hoje em dia tem dado muito que pensar e transforma nossa vida diariamente.

Sendo residente em Espanha por anos, não posso deixar de contar como todos estamos vivendo essa situação dia a dia, e também pôr foco nas atitudes solidárias e altruístas de muitos espanhóis.

Levo desde quarta-feira (11 de março) confinada em casa, saindo apenas para comprar leite e doar sangue. Até sexta-feira passada o confinamento era parcial, mas depois do pronunciamento do presidente do Governo no sábado 14, declarando Espanha em Estado de Alarma, já não podemos mas sair de casa se não for para comprar comida, ir à farmácia, ou ir ao hospital. Temos policia e exército nas ruas;  drons com alta-vozes sobrevoando a cidade mandando os cidadãos para casa; e qualquer infração pode levar a multas estratosféricas.

Desde que começou essa crise aqui, escutei por parte dos brasileiros vários comentários desrespeitosos ou simplesmente desprezando a situação. Entendo perfeitamente o deboche ou o tom jocoso, porque até que a crise não chegou a Espanha, também fazíamos piadas o tempo todo com o tema. E só agora começamos ver tudo diferente, e começar a entender a gravidade da situação. O fato é que a pandemia não tem fronteiras, nem partido político e aqui estamos todos em casa, aguentando o melhor que podemos essa situação.

A situação é tão distópica que comecei a escrever um diário relatando essa situação cada dia. De certa forma me ajuda ver isso com proximidade, mas também com certa distância, na esperança  de um fim mais pronto que longevo. Mas o certo é que tem dias que custa dar crédito ao que está passando, e que custa imaginar a realidade de passar 15 dias em casa sem ver ninguém. 15, 30, 45 ou até 60. Vai saber quanto tempo isso vai durar.

Vou muitas vezes até a janela ver se consigo ver os vizinhos, nem sempre é possível. As vezes lhes escuto falando por telefone, algumas vozes de desespero soam no ar. Começo a fazer revisionismo histórico e imaginar casos muitos piores, na segunda guerra mundial, onde milhões de pessoas se esconderam anos nos porões e sótãos das casas. Sem comida, sem sol, sem companhia.

Muitas vezes nos esquecemos, mas fato é que naquela época ninguém falava de falta de vitamina D, ou de falta de companhia, ou de depressão.  Muitos casos como esses citados nunca foram relatados; quem sabe naquela época a guerra já era uma um fato tão grande em si que todo o resto dos probelas eram meros efeitos colaterais.

E ainda que me este parecendo difícil estar sozinha em casa, sem ver ninguém, não posso deixar de escrever muitas atitudes solidárias que os espanhóis estão tendo para afrontar essa crise. Atitudes que quero contar para ver si quem sabe dê a volta ao mundo, e que aprendamos e prediquemos com o exemplo… porque se isso continuar assim e essa pandemia continua estendendo-se devemos ajudar-nos um aos outros.

Doar sangue

Quinta-feira, dia 12 de março, o presidente e os jornais fizeram um chamamento às pessoas saudáveis a doar sangue porque os hospitais e banco de sangues estavam ficando com as reservas esgotadas. Em dois dias compareceram tanta gente que já não foi mais necessária gente para doar.

Jovens se oferecem para ajudar famílias

A primeira medida de Estado de Alerta na segunda feira, 9 de março, com a suspensão das aulas e a adesão ao tele-trabalho, muitos jovens se ofereceram, de forma altruísta, a cuidar dos filhos dos outros para que eles pudessem continuar trabalhando e muitos não tivessem que recorrer aos avós, que neste momento são grupo de risco.

Professores particulares

Muitos jovens e professores também se ofereceram  a dar aulas particulares às crianças que necessitassem de apoio e não pudessem ou fossem capaz de seguir as aulas de forma virtual.

Classe artística

Traz o confinamento de todos os espanhóis, podendo sair só para o mercado ou a farmácia e somente um membro da família, muitos artistas espanhóis fizeram concertos em streaming desde plataformas como Instagram ou outras para que pudessem ver de forma online. Escritores estão oferecendo seus livros totalmente gratuitos para serem lidos, e todos estão motivando as pessoas a ficarem em casa.

Médico gerais, cardiologista e psicólogos

Diante da complexidade da situação muitos médicos oferecem sua consulta de forma online,  como por exemplo os cardiologistas e psicólogos que estão oferecendo sua ajuda com sessões por Skype. Todas elas sem nenhum custo.

Hotéis que se vão tornar hospitais provisionais

À parte da ajuda privada dos hospitais, que aqui estão colaborando desde o primeiro minuto com o governo para atender a população, os hotéis ofereceram seus complexos para se tornarem hospitais provisionais diante do possível colapso do sistema sanitário diante dos numeros casos previstos. Ja temos 4 ou 5 hoteis que foram transformados en hospitais provisionais e em 48 horas se contruiu um hospital de guerra para os casos menos graves no edificio do IFEMA, um pavilhao de feiras e eventos.

Manifestações por parte dos vizinhos para agradecer ao pessoal sanitário

Sábado de manhã, 14 de março, uma das primeiras mensagens que recebi foi uma iniciativa viral em que convocava todas as pessoas na janela das suas casas as 22h para aplaudir e agradecer ao pessoal sanitários (médicos, enfermeiros, etc.) ao excepcional trabalho que estão prestando para atender a essa crise. Foram vários minutos de aplauso, escutando, e compartilhando esse sentimento de eterno agradecimento que estão tendo para com todos. Depois desse dia, todos os dias as 20h todos voltamos as nossas janelas a aplaudir por pelo menos 5 minutos.

Estas são algumas, mas não todas, atitudes que venho visto esses dias aqui. Também é certo que na minha empresa, deu total flexibilidade aos pais e mães de família para se organizarem, sendo empático com a situação e sem descontar do salário aqueles pais que não podem deixar as crianças em casa sozinha.

Sim, estamos diante de uma situação única, extraordinária e sem precedentes na história recente desse país; e, não obstante, estamos todos aqui, fazendo o que for possível para vencer essa situação, ajudar-nos um aos outros e oferecer o nosso total apoio. Aprendamos dessas atitudes, repliquemos nossa solidariedade.

Quem sabe dessa crise não descobrimos algo muito maior e mais bonito que nos une?! Façamos revisionismo, pensamos no que realmente importa.

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Jaqueline D`Hipolito Dartora
Jaqueline D`Hipolito Dartora
Formada em Jornalismo na Universidade Santiago de Compostela, Jaqueline se identifica como escritora e "vinalogadora". Atualmente dedica-se ao marketing e a comunicação, promovendo eventos que conectam e promovem o diálogo entre o vinho e as artes em geral. Têm também vários projetos paralelos relacionados com as letras e o mundo do vinho. Promove formas mais sustentáveis de vida, sendo uma ativista do uso da bicicleta na cidade e de uma vida mais saudável, lenta e meditada. No seu tempo livre realiza trabalhos voluntários em Vinícolas ecológicas e (WWOOF) y recentemente criou o blog Vinálogos. Colabora com alguns blogs, lojas de vinho, e escreve contos, relatos, ensaios em inglês, português e espanhol.

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