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Por Erol Anar / Estou voltando do vale Ihlara* com um rastro na minha costela, como se tivesse sido carimbada com uma marcada com fogo, sem a mínima possibilidade de sair da minha pele. Quando coloquei minha mão no riacho desse vale fui invadido por uma felicidade enorme. Como essa água de riacho, meus sonhos estão frescos e aquecidos, deixei alguns desses desejos ali no riacho, confiando que ele irá ampará-los com um barquinho de papel flutuando através dele. Como Balzac possui o “Lírio do Vale”, eu tenho o riacho do vale.

Primeiro eu busquei por você na Igreja,dentro dela haviam cobras, foram suas paredes que marcaram com um rastro sagrado a minha costela. Você estava ao meu lado porém eu procurava você como se estivesse num outro planeta tão distante, num outro sistema solar. Pensei que nunca iria ver você novamente, buscava um encontro, mas sem esperança, como uma criança que perdeu sua pipa no céu. Depois nós nos perdemos na cidade subterrânea que tem  mais de 1000 anos. Nós nos procuramos pelos túneis secretos de quilômetros de distância, eles são escuros, não tem iluminação… Sabíamos que seria quase impossível nos acharmos neles.

Toquei nos sepulcros antigos que ficam na Igreja Escura, como se eu tocasse no seu corpo morto, fiquei sofrendo, deixei minha sombra no Vale Ihlara. Desde esse dia ando sem sombra.

A maior parte de nós pára num determinado ponto de nossas vidas e nos entregamos, não há mais energia nem para viver nem para morrer, mas o riacho nunca parou. Até mesmo naquele momento no qual a água esta diminuindo e os peixes respiram com dificuldade, ainda assim ele corre mantendo sua fé para ir longe.

Nós olhamos as espumas brancas do riacho e ficamos calados,  você eu e minha sombra, que cedi para o riacho, nossas solidões de cor prata entraram em combate. Quando estávamos escutando a voz do riacho você afirmou que: “tudo não é nada”. Nos calamos como se pudéssemos morrer se falássemos e quebrássemos aquela magia.

Falei sobre a solidão, pensei: _” o que você fez com sua solidão e sua sombra? você deu para o riacho com uma cerimônia sagrada? Nossas sombras correm até locais muitos distantes com o riacho? “.

À noite estava chegando e estava escurecendo rápido no Vale Ihlara, a voz do riacho crescia e ele já não lavava os galhos das árvores que pendiam nas suas águas, agora tínhamos que ir embora dali, do riacho, do vale…Chegava a hora! Eu olhava pela última vez para o riacho quando terminamos de subir, lá de cima…Eu murmurei para ele: “Adeus meu amigo!”.

Minha costela ainda sente dor, minha sombra não me segue mais… Eu ainda estou no vale Ihlara…

 

 

* Vale Ihlara: vale que fica no centro da Turquia, lá fica a Igreja de São Jorge, ele nasceu na Capadócia, Turquia.

ihlara

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Erol Anar
Erol Anar
Erol Anar nasceu em Havza na Turquia, estudou em cursos de Antropologia (durante dois anos), História da Arte (durante dois anos) e pintura (durante um ano) nas universidades de Istambul, Ancara e Samsun. Foi membro da Associação dos Escritores Turcos, trabalhou no Centro de Arte Contemporânea de Ancara onde foi orientador de leitura da obra de Dostoiévski e da literatura universal durante 10 anos. Ganhou prêmios. Escreveu em diversos jornais, vários artigos foram sobre arte, direitos humanos, literatura e a vida cotidiana. Ainda teve entrevistas veiculadas em jornais de diversos países e tem 15 livros publicados no idioma turco.2 Deles foram traduzidos para português.

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