As aparições mágicas de Galeano
21 de abril de 2015
Homenagem à Terra pela arte de dois menestréis
23 de abril de 2015
Exibir tudo

Sempre penso na hospitalidade das pessoas humildes…

Podem achar que não têm muito a oferecer, porque moram numa casa singela, a comida é pouca, as roupas que vestem sem requinte. Mas o que não sabem é que, de fato, têm muito mais para partilhar e do que se orgulhar do que imaginam.

Têm a virtude da autenticidade, a riqueza do calor humano, o charme do carisma, a abundância do ser gente boa, gente com substância, gente sábia, gente humana!

As casas

As casas, não importa quão luxuosas possam ser, um dia ficam velhas. A comida pode estar sobre uma mesa farta hoje, mas logo é reciclada, desaparece na digestão. As roupas mudam, conceito de moda é fugaz, passageiro. O que hoje é obsessão, amanhã é considerado ultrapassado.

Mas o material humano, a essência que nasce dentro, esta não envelhece, não apodrece,  não vira velha guarda. É esta a matéria prima que preenche vidas com alegrias, sabedoria e coragem. É o pilar que sustenta a construção inteira das relações. É aquele acalento de um cobertor tão necessário para aplacar a dureza do frio, a luz brilhante de um farol quando se está náufrago, assim como o arco-íris que anuncia o fim da tormenta. Calor humano é casa, comida, vestimenta. Só é perecível se a gente quiser, permitir ou parar de cultivar.

Parentes de minha mãe

Lembro com muita saudade dos parentes de minha mãe do Sul.  Estavam sempre com as janelas, portas e braços abertos para quem chegasse. Iam para a cozinha preparar coisas gostosas para compor a mesa de fim de tarde, como gesto de boas vindas. Aí, todos reuniam-se para conversar, partilhar histórias, lágrimas de saudade e risos de felicidade. A alegria, o carinho e a satisfação que demonstravam ao acolher as pessoas eram palpáveis.

Não recordo-me dos detalhes das casas deles, como estavam vestidos, ou quais foram os pratos que serviram, mas lembro de modo absolutamente cristalino  dos abraços bem dados, os olhares interessados, os sorrisos largos, os gestos de amor, apreciação, bem querer em liquidação em cada oportunidade. Era tudo tão natural, tão generoso e, sobretudo, desprentecioso! Coisas que não têm preço, que não se compram em lojas, que não se acham assim em qualquer canto, ao contrário, são tesouros raros.

Pessoas simples

Para as pessoas simples e generosas, mesmo que a vida  venha com aspereza, é sempre encarada com fortaleza. Professores catedráticos de ímpar sabedoria e profundo senso de valores, família, amizade, compreensão, comunhão incondicional. Educadores do sobreviver do amanhecer do dia, até a escuridão do anoitecer. Nos fazem enxergar a essência, não a aparência. A essência é que preenche o ambiente destas riquezas. É essa essência que faz a gente querer ficar mais, sentir saudade e, mesmo se tiver que partir, vai manter vivo o nosso desejo de retornar.

É essa essência genuína partilhada de modo incondicional por estas pessoas maravilhosas e inspiradoras que faz nascer dentro da gente um amor igualmente verdadeiro por elas. Na presença delas, através dos gestos delas, nos sentimos em casa, mesmo estando longe de casa. É uma sensação mágica, uma alegria contagiante que transcende para a alma.

Quando o tempo de vida chega ao seu fim, tudo passa, só estas coisas ficam, as coisas que nos tocaram o coração, preencheram nossos dias de alegria. Foi a bondade de pessoas assim genuínas e abundantes em generosidade, que nos ajudou a construir este legado incomparável, precioso e tão alentador num momento no qual tudo mais já se tornou anêmico e pueril.

(Ilustração Norman Rockwell)

Comentários Facebook

comentarios

Simone Bittencourt Shauy
Simone Bittencourt Shauy
Enfermeira, escritora e ilustradora. Escrever para ela é intuição e exercício de liberdade.

2 Comments

  1. Lucia Helena Fernandes Stall disse:

    Lindo e verdadeiro o texto

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.