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Dostoievski. Foto Internet

Como o sofrimento das outras pessoas nos dá gozo!

Quando estamos vendo outras pessoas infelizes, não sentimos nosso próprio sofrimento. Há pessoas que aguardam o momento da vingança para a vida das pessoas, porém, o fim da pessoa infeliz faz infeliz também todas as pessoas que estiverem ao seu lado. Quando todo mundo fica infeliz ao seu lado ele captura uma felicidade demoníaca na sua infelicidade.

O escritor russo Dostoiévski disse que “Se a felicidade de uma cidade dependesse de aceitarem a tortura diária de uma menininha,qual você escolheria: a tortura da criança ou a infelicidade da cidade sem tortura?”. A escritora americana Ursula Le Guin começou com essas palavras de Dostoiévski seu romance. (Os que vão embora de Omelas) .

Nesse romance, todas as pessoas da cidade aceitaram a tortura da menininha para obter a felicidade, até um dia no qual chegava a vez da sua filha. Nesse dia notavam que era ridículo o acordo e passavam a rejeitá-lo. Na realidade eles sabiam que era ridículo antes, mas não se perturbavam enquanto o sacrifício era para filhas de outras pessoas.

Quando a sua própria vez chegava faziam alarde do que sentiam, sem esse funcionar. Muitas vezes não valorizamos a vida de outras pessoas, a morte de uma pessoa, se não é pessoa próxima, não nos faz sofremos nada. Às vezes, nas guerras, podemos assistir milhares de pessoas morrendo com o sangue frio.

Dostoiévski com essa frase expôs o egoísmo humano. Se 10 anos antes tivesse eu respondido essa pergunta, teria dito isso: “eu escolho a felicidade da cidade, para a felicidade da sociedade uma única pessoa pode se sacrificar”.

Mas hoje tenho outra resposta sem vacilar: se a cidade depende de aceitar a tortura de uma menininha deixe aquela cidade ficar infeliz até o infinito. Porque a felicidade da cidade, se aceitada a tortura, seria uma felicidade falsa. Se o indivíduo está infeliz então, a cidade não poderá ser feliz. Muitas vezes fazemos caretas de desdém para as tragédias que acontecem com os outros, pensamos que o mais importante é a felicidade da sociedade e não do indivíduo.

Mas pensando assim não percebemos uma realidade muito importante, se você não conseguir respeito, honra e direitos humanos garantidos, não poderá ser feliz na sociedade. Se você ganhar o poder de governar um dia, vai fazer a sociedade mais infeliz com esse tipo de mentalidade.

Erol Anar

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Erol Anar
Erol Anar
Erol Anar nasceu em Havza na Turquia, estudou em cursos de Antropologia (durante dois anos), História da Arte (durante dois anos) e pintura (durante um ano) nas universidades de Istambul, Ancara e Samsun. Foi membro da Associação dos Escritores Turcos, trabalhou no Centro de Arte Contemporânea de Ancara onde foi orientador de leitura da obra de Dostoiévski e da literatura universal durante 10 anos. Ganhou prêmios. Escreveu em diversos jornais, vários artigos foram sobre arte, direitos humanos, literatura e a vida cotidiana. Ainda teve entrevistas veiculadas em jornais de diversos países e tem 15 livros publicados no idioma turco.2 Deles foram traduzidos para português.

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