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Feminicídio e as Violências Invisíveis

Reflexão sobre feminicídio e as violências invisíveis contra a mulher no Brasil, da violência psicológica à sobrecarga feminina.

Tenho lido as notícias com um aperto no peito que não passa, onde cada novo caso de feminicídio me atravessa. Porque poderia ser comigo e poderia ser com qualquer uma de nós. E enquanto os números viram estatística, nós viramos silêncio. Um silêncio pesado, que não cabe só no medo de morrer, mas no cansaço de sobreviver todos os dias.

Seis mulheres mortas por dia por razões de gênero! Eu sou mulher e mesmo distante desta realidade hoje, me amedronta essa brutalidade explícita. Em 2025, o Brasil registrou 6.904 vítimas de feminicídio, entre casos consumados e tentados, um aumento de 34% em relação ao ano anterior, o que significa quase seis mulheres mortas por dia por razões de gênero, segundo o mais recente relatório sobre o tema. São milhares de vidas interrompidas, milhares de histórias que poderiam ter continuado, milhares de filhos e filhas que hoje carregam um vazio.

Ainda sofremos, nós mulheres, com outro tipo de violência. É a violência que não deixa hematoma, mas corrói por dentro. Esses são dados que não são mensurados, que não viraram notícia, estatística (ainda).

É acordar e saber que, dentro da própria casa, a autoridade é medida pelo extrato bancário. Que se você decide pausar a profissão formal para estar mais próxima dos filhos, para respirar um pouco, para reorganizar a vida, há sempre alguém pronto para dizer que você não aguentou a pressão. Como se escolher outro ritmo fosse sinônimo de fracasso. Como se trabalhar por conta, empreender, reinventar-se não fosse trabalho de verdade.

É ouvir que o cansaço é consequência da sua escolha. “Mas você quis sair.” Como se sair do mercado formal tivesse sido sair do trabalho. Como se alguém tivesse assumido mentalmente a lista do supermercado, o planejamento das refeições, o controle das roupas, as consultas médicas, os aniversários, as reuniões da escola, o estoque da despensa, a manutenção invisível da casa. Quando a mulher trabalha fora o dia inteiro, isso já está com ela. Quando fica em casa, continua com ela. A carga muda de formato, mas raramente muda de colo.

É empreender com horário flexível para poder estar presente e, ironicamente, ouvir que você nunca está. Porque o computador fica aberto até tarde, porque o celular vibra, porque o projeto não termina às seis. Porque a flexibilidade quase sempre significa trabalhar nas frestas das agendas dos outros. No intervalo da escola, depois que a casa silencia, no cansaço da madrugada. E o julgamento? “Você só trabalha. Você não quer estar com a família. Você está sempre ocupada. Sempre de cara feia.” Como se a busca por autonomia fosse abandono e se sustentar sonhos fosse egoísmo.

E ainda há a exigência silenciosa de continuar bonita, leve, disponível. De sorrir. De desejar. De ser parceira. De ser animada. De não demonstrar exaustão. De não perder o brilho. Como se fosse possível sustentar tantas camadas sem nunca trincar.

Essas violências não saem no jornal e não geram comoção nacional. Mas moldam uma narrativa diária em que a mulher está sempre devendo alguma coisa. Se trabalha fora, está ausente. Se fica mais em casa, é dependente. Se empreende, é egoísta. Se cansa, é escolha dela. Se reclama, é exagero. Se silencia, é fraca.

O feminicídio é o extremo brutal de uma cultura que começa muito antes, em pequenas deslegitimações, em ironias, em frases jogadas no jantar, em olhares que diminuem, em expectativas impossíveis. É o mesmo fio, só que tensionado até o limite.

Eu escrevo isso não como tese, mas como confissão. Porque às vezes me sinto culpada por estar cansada. Porque já duvidei da minha própria força quando ouvi que eu não tinha aguentado. Porque já me senti invisível dentro da minha própria casa. Porque já me senti ausente mesmo estando presente. Porque já me cobrei ser mulher, mãe, profissional, amante, organizada, produtiva, doce e estratégica, tudo ao mesmo tempo.

E talvez a maior violência seja essa: nos fazer acreditar que estamos sempre insuficientes.

Eu não quero que a nossa indignação apareça apenas quando uma de nós morre. Quero que ela exista também quando uma de nós é diminuída. Quando sua escolha é deslegitimada. Quando seu trabalho é invisibilizado. Quando seu cansaço é tratado como drama.

Porque sobreviver não deveria ser exaustivo. Amar não deveria doer. E existir como mulher não deveria ser um exercício diário de justificativa.

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