A Imortalidade de Milan Kundera

Inconfundível estilo e valiosa arte de Klimt
10 de janeiro de 2016
Rendas que enfeitam o Brasil da mulher rendeira
15 de janeiro de 2016
Exibir tudo

‘A Imortalidade’, do escritor tcheco Milan Kundera, é um livro surpreendente. O autor trata de um tema subjetivo, num texto leve, mas pragmático.É uma leitura tranquila, sem tramas intensos, quase um “livro de cabeceira” sobre o comportamento do homem e do seu desejo de imortalidade.

Será bem provável que o leitor irá se identificar com as situações que Kundera define com simplicidade, como é o capítulo  A Adição e a Subtração.

Para conseguir a originalidade do eu as pessoas ou adicionam ou subtraem para se identificarem.  “Em nosso mundo, não é tarefa fácil para o homem querer confirmar a originalidade do seu eu e conseguir convencer-se de sua inimitável unicidade. Há dois métodos para cultivar a unicidade do eu: aditivo e subtrativo”

Aí cita seus personagens como exemplos. Agnes ( a principal) que é reservada, subtrai de seu eu tudo que é exterior e emprestado, para chegar a sua essência pura, e Laura, a irmã, extrovertida e manipuladora, é o inverso, usa sem cessar novos atributos, aos quais tenta se identificar.

Também faz uma comparação interessante sobre o papel de uma gata na personalidade de Laura. A gata que adquiriu para ajudá-la a enfrentar a solidão de um divórcio. “De tanto viver com ela, falar dela com seus amigos atribuiu a essa gata, escolhida mais por acaso e sem grande convicção (pois afinal a princípio quisera um cachorro!), uma importância cada vez maior: em todos os lugares elogiava seus méritos obrigando todos a admirá-la. Via nela a bela independência, o orgulho, a desenvoltura, o charme permanente (bem diferente do charme humano que se alterna sempre com momentos de inépcia e de falta de graça); via um modelo em sua gata; via-se nela”.

Kundera cria Agnes a partir de um gesto que capturou numa mulher mais velha. A introdução do livro é sobre a imortalidade de um gesto, que seduz pelo tom reflexivo. “Esse sorriso e esse gesto eram cheios de encanto, enquanto que o rosto e o corpo não eram mais. Era o encanto de um gesto sufocado no não encanto do corpo. Mas a mulher mesmo que não soubesse que não era mais bonita, esqueceu isso naquele momento”.

No entanto, na sequência do texto, Kundera, não se curva à  vida cotidiana de Agnes. Se aprofunda no significado da imortalidade e a apresenta nas suas diversas faces.  Em meio a narrativa, insere Goethe, Betina, Hemingway e exalta a imortalidade para quem vive nesse mundo. A imortalidade da memória da posteridade, da permanência na história da humanidade.

” Trata-se de uma outra imortalidade, profana, para aqueles que permanecem depois de mortos na memória da posteridade. Qualquer pessoa pode esperar por essa imortalidade, ou maior ou menor, mais ou menos longa, e desde a adolescência pensar nisso”.

O texto não segue uma estrutura literária comum. O leitor tem a sensação de que o autor se confunde ou talvez, ao contrário, o autor quer confundir o leitor.

Kundera esmiúça o significado da imortalidade para os homens que a buscam. É soberba a maneira como ele recoloca no cenário o encontro em Napoleão e Goethe, que realmente aconteceu em 1808, em Erfurt, embora nesse caso o foco era refletir sobre a a morte e imortalidade do poeta imortal e de um imortal estrategista. Essa riqueza literária ocorre também nos encontros com Hemingway.

‘A imortalidade’ não é um livro previsível, muito menos em seu final. Mas certamente o conteúdo estará para sempre na memória do leitor.

 

 

 

 

 

 

 

Comentários Facebook

comentarios

Mari Weigert
Mari Weigert
Mari Weigert é jornalista com especialização em História da Arte pela Escola de Música e Belas Artes do Paraná. Atuou na área de cultura, como jornalista oficial do Governo do Paraná. Durante um ano participou das aulas de Crítica de arte de Maria Letizia Proietti e Orieta Rossi, na Sapienza Università, em Roma como aluna ouvinte. Acredita que as palavras bem escritas educam e seduzem pelos seus significados que se revelam na poética da vida. *IN ITALIANO (Mari Weigert è giornalista e perfezionata in Storia dell' Arte per la Embap, del Brasile. Durante un anno è stato alunna di Critica d'Arte, alla Sapienza Università di Roma. Crede nelle parole ben scritte che seducono per le sue significate in cui rivelano la poetica della vita.)

Os comentários estão encerrados.